O que não tem rosto nem nunca terá

A mulher, enfastiada com o namoro de dois anos, está às voltas com a tentativa de contornar a mesmice à qual se crêem destinados os relacionamentos longos. O homem não se queixa, mas também não se implica nas investidas da mulher para mudar a situação. Fugidio e autopiedoso, ele olha para outras mulheres; ciumenta e impulsiva, ela as interpela e as agride publicamente. Em uma cena chave, ela, percebendo que seu parceiro não alcança uma ereção, convida-o a imaginar que, durante o sexo, ele estaria transando com outra mulher em uma espécie de infidelidade calculada. O resultado não poderia ser mais catastrófico: eles de fato transam, o que dá a ela uma certeza culposa ainda maior de que “o problema era ela”. Diante do malogro de tais tentativas, ela encontra a mais engenhosa das soluções, que se revelará calamitosa: ela passará por uma cirurgia facial, na qual reconstruirá completamente seu rosto a fim de se transformar em outra mulher, capaz de simultaneamente conquistar e reconquistar o mesmo homem.

As primeiras cenas do filme “Time – O Amor contra a Passagem do Tempo”, do diretor sul-coreano Kim Ki-duk, são as da cirurgia. Expõe-se aquilo que propositadamente não se expõe na mercantilização da cirurgia plástica tão própria de nossos tempos: o sangue, a pele costurada, a carne crua, o risco da morte. A aposta na cirurgia é precisa, pois ela não se mistura com a insatisfação com algo do nariz, ou da boca, ou de qualquer elemento do conjunto “rosto”. Por isso mesmo, ela é extremamente arriscada: a aposta é, fundamentalmente, a aposta em ser outra – qualquer outra, desde que não seja a mesma.

O filme tem o mérito de entrelaçar dois temas absolutamente nobres e caros à tradição psicanalítica: o amor e o reconhecimento. Dentre os diversos modos pelos quais amor e reconhecimento se entrelaçam, o filme coloca em questão o papel fundamental do reconhecimento enquanto condição para a realização do amor. O recurso psíquico para o reconhecimento é necessariamente imagético, o que, conseqüentemente, envolve a dimensão temporal da assunção da imagem. Esta dimensão temporal é a instantaneidade: o instante de ver funciona como uma espécie de garantia imediata de realidade que se dá no tempo fugaz da oferta da imagem ao olhar. A segurança experimentada quando eu reconheço alguém se dá na coincidência entre aquele que é visto (tempo presente) e aquele que eu espero estar vendo (manutenção do presente no tempo futuro). Se esta coincidência é suspensa, vem à tona o desconhecimento – o bom e fiel parceiro do reconhecimento. E quando se trata de algo tão fundamental, tão capital, tão “seguro” quanto reconhecer o rosto de alguém familiar, desconhecer é radicalmente inquietante, é estar entregue à experiência do horror. Há em certo momento do filme uma menção explícita a “Os Amantes”, de René Magritte, representante do beijo impossível sob os rostos cobertos por lençóis. A referência não poderia ser mais precisa no que se refere a este sentimento de estranheza. Afinal, o que garante que aquele sob os lençóis é quem eu acredito ser? E se quem eu vejo não coincide com quem eu espero ver, então quem eu vejo?

O par irredutível aqui em jogo é “vejo/sou visto”. Na gramática do reconhecimento, o encontro com a imagem é, sobretudo, um encontro faltoso. A natureza desta falta é a mesma da irrespondível pergunta “o que será?” da qual falava Chico Buarque. Inquietante por definição, a dimensão da falta irrompe apesar das certezas imagéticas: ela é aquilo “que me salta aos olhos a me atraiçoar”. Errante por vocação, o reconhecimento comumente tropeça na ilusão de completude que é própria do espelho. No curto-circuito da dimensão do olhar, reconhecer a própria imagem no espelho implica em um suposto estado de simbiose, de fusão, à maneira de Narciso. Mas, ao mesmo tempo, aquilo que aliena e separa, que fascina e horroriza no espelho é também aquilo que qualifica a realidade, que dá o tom de sua garantia. E é então que a personagem, com a cirurgia, dá um tiro no pé: como é possível que ela se ofereça enquanto mesma para o outro se ela não oferece a garantia imediata de que ela é ela mesma? Sem tal garantia, as outras (como cheiros, palavras, gostos e toques) se tornam absolutamente precárias, porque são dependentes desta “garantia primordial”.

O destino nefasto do casal do filme parece lembrar um dado incontornável: reescolher o mesmo implica em reconhecê-lo enquanto mesmo. Pois uma das condições para a manutenção da reescolha é a sustentação da possibilidade de pagar seu preço. É certo que não há escolha sem renúncia. O raciocínio é simples: se eu escolho um entre dois objetos, quando eu escolho um, eu escolhi não escolher o outro. O filme sugere que não se trata de escolher o parceiro “para sempre”, mas de reescolhê-lo “de tempos em tempos” em detrimento das outras escolhas possíveis. Tarefa difícil, seguramente, mas não impossível. Se os rostos não se desfigurarem por completo, eles podem até cair e se tornarem prescindíveis, abrindo os caminhos, enfim, em direção ao que não tem rosto nem nunca terá: as belezas e as tragédias da desproporção do encontro amoroso.

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Sobre Rafael Alves Lima

Psicanalista. Graduado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP (IPUSP). Mestrando pelo Depto. de Psicologia Clínica - IPUSP. Membro do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (LATESFIP/USP) e do Laboratório Jacques Lacan (IPUSP). Trabalho segundo a orientação clínica de Freud e Lacan, inspirando-me também em Ferenczi e em autores do cenário psicanalítico francês pós-lacaniano. Membro da Clínica da Alves e colaborador do blog da Clínica da Alves.
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