CORPO: OBJETO DA PSICANÁLISE E IMPASSES COM A PSICOSSOMÁTICA

* Texto apresentado nas Jornadas da Escola de Psicanálise dos Foruns do Campo Lacaniano, em 2008.

“Eu não sou esse conjunto de membros que chamamos de corpo”[1]. Iniciar a questão do corpo, como objeto da psicanálise, com esta frase de Descartes de sua obra Meditações, oferece uma pequena pista do caminho que trilhei na composição deste trabalho. As operações de consolidação do saber científico, no que tange às formalizações imaginárias de Descartes, implicam num modelo objetivo de recobrir as experiências e os objetos, a fim de uma verdade indubitável, replicável e circunscrita por um método. Figuração ilusória, implicando em enganos e rupturas, principalmente sobre o organismo humano. O campo semântico da medicina se apóia em tal formalismo, com a máxima do corpo como cadáver, e pela dissociação epistemológica entre a clínica (a prática médica) e a pesquisa (o trabalho de laboratório), cujo método anátomo-patológico se sustenta por um correlato orgânico à doença. Se o método científico médico e seus constructos se apóiam no suposto formalismo de Descartes como forma moderna do conhecimento, e atingem a máxima do método do corpo como cadáver, tal frase também abre fenda para a sub-versão do corpo, com a psicanálise e seus objetos de tradução epistemológica.

Pensar o que se é onde não se está, na questão freudiana da identificação e da representação, e em Lacan o sujeito da psicanálise no que toca o inconsciente estruturado como linguagem, cujo corpo é cerne do falasser como entrelaçamento dos três registros Real (sinônimo de gozo), Simbólico (marcado pelo significante) e Imaginário (captado pela imagem). O objeto corpo para a psicanálise formaliza-se como o real do corpo recoberto pela linguagem, o invólucro captado em imagens, atravessado por palavras.

Com Freud, a psicanálise é definida como método de tratamento e método de investigação, cujo empreendimento teórico é compor elementos próprios à clínica psicanalítica: uma metapsicologia. Contudo, a importância de um correlato orgânico para um sintoma ou enfermidade é uma posição epistemológica não-toda[2] criticada por Freud nas duas últimas décadas do século XIX, quando se aprofunda nos estudo sobre a afasia, momento importante na construção de uma posição freudiana diante da linguagem em relação às localizações anatômicas como etiologia de um quadro fenomenológico clínico, e principalmente com a anunciação de um corpo que circula para além dos nervos, com as histéricas. São dois momentos freudianos muitos distintos no modo como aborda a borda do corpo. Freud está às voltas com uma questão de método, cuja tentativa é separar aspectos psicológicos dos aspectos anatômicos do objeto de estudo, para então, na recusa de uma base anatômica como fundamento, ascendesse a função da linguagem como ordenador universal para a prática clínica nos tratamentos da neurose. Só resta, então, formalizar uma nosografia, etiologia e tratamento com signos próprios à psicanálise.

Com a histeria, o método psicanalítico ganha contorno mais preciso, e o corpo como objeto da psicanálise desprende-se do formalismo anatômico, convocando Freud a método de trabalho que reposicionasse o corpo no jogo desvelado pelo falante, marcado pela história e representações na relação com o outro. A conversão histérica rende um paradigma para pensar a corporeidade em psicanálise, pois, na lógica do aparelho psíquico em Freud, há o mapeamento na metapsicologia do fenômeno segundo um ponto de vista tópico, dinâmico e econômico. Constitui-se uma gama de operadores metapsicológicos envolvidos na formulação do sintoma para um sujeito, cujo conceito-eixo da metapsicologia freudiana está às voltas com o termo pulsão (Trieb), que é definido como o limite entre o psíquico e o somático. É como corpo pulsional que o corpo pode ser auto-erótico e narcísico. Além disso, como força constante e exigência de trabalho imposta ao psiquismo pela sua ligação com o corpo, a pulsão seria origem e um dos fundamentos do sujeito. Com a escuta psicanalítica, marca-se o re-encontro epistemológico do sujeito com seu corpo. A prática e seu objeto associam-se na vivacidade da transferência ao dizer sobre sua enfermidade, pois qualquer qualidade diagnóstica, descrição nosográfica e arqueologia etiológica só se faz enquanto falada. Pólo oposto ao aspecto da clínica médica anátomo-patológica. Escutar o enunciado das histéricas e legitimar uma enunciação inaugura o conceito chave para o inconsciente, a saber o recalque. Tal mecanismo suscitou a Freud a questão de uma lógica, própria ao inconsciente, e de causa, a sexual. O que a histérica mostra é algo de si, em seu corpo, pela via do sintoma. É o sintoma que faz o diálogo; o que sobressai desse diálogo, desse discurso, é a idéia da presença de um conflito inconsciente que remete a um desejo de ordem sexual.

A gramática do narcisismo, pela articulação que ele propõe a partir da hipótese teórica do investimento libidinal no próprio corpo (objeto destino da pulsão), e o desdobramento defensivo (condição necessária à superfície do eu) de tal funcionamento para a psique do sujeito nos primeiros meses de vida é ponto nodal para pensar o corpo. A angústia, afeto, representação e objeto são alguns dos termos com os quais o autor conecta para sedimentar o termo pulsão, e conjugar a ex-sistência do eu-corporal. O conceito de eu corporal enquanto projeção, remete a transformação do que é da ordem do pulsional, quando o eu é diferenciado do outro. Por fim, é essa passagem que implica na transformação do corpo biológico em corpo erógeno. O corpo próprio da psicanálise. A passagem da dispersão pulsional para a unidade corporal, e a partir desta a emergência do eu e do corpo próprio, está desenhada no conceito no salto do auto-erotismo para o narcisismo, que implica nas proposições de uma estruturação cuja interpretação do desamparo inicial em relação ao próprio organismo será atualizado sob a luz da experiência do Édipo e da castração, com os fincos que sedimentam o corpo pelos ideais. Temas de psicanálise, e das demandas por análise nos sujeitos.

Lacan (1998) retoma essa questão nos primeiros momentos do seu ensino, cuja referência se faz pelo texto “O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica” (1936).             “A teoria que eu tenho em mente é uma teoria genética do ego. Esta teoria pode ser considerada psicanalítica, na medida em que ela trata a relação do sujeito com seu próprio corpo em termos de sua identificação com uma imago, que é o relacionamento psíquico por excelência; de fato, o conceito que nos formamos deste relacionamento, a partir de nosso trabalho analítico, é o ponto de partida para toda psicologia genuína e cientifica”[3].

Lacan buscou sistematicamente analisar a racionalidade diagnóstica em Freud e este retorno contribuiu com mudanças importantes em algumas concepções como a de libido e economia libidinal, com a introdução de conceitos, como o de gozo e objeto a, e nomeou enunciados da teoria freudiana com a máxima, o inconsciente é estruturado como linguagem. Formalizando, então os parâmetros que são a fala e o sexo, implicando em dois estatutos do corpo de interesse à psicanálise: o corpo falante e o corpo sexual.

A questão do corpo em psicanálise situa-se na articulação do soma e a história do sujeito. A clínica contemporânea no dizer sobre o corpo e a entrada do saber psicanalítico em instituições predominantemente médicas, como hospitais, apontam a necessidade de revisão e inclusão de conceitos ao arsenal do saber psicanalítico, dados fenômenos que estão para além das somatizações, para além das conversões. No que se refere ao corpo, há relatos clínicos em psicanálise sobre fenômenos psicossomáticos, nos quais os órgãos são marcados por lesões, e num hiato discursivo, os sujeitos parecem não fazer questão e estão estancados no discurso médico sobre a patologia. Não se cessa em repetir as peculiaridades sobre tais sujeitos propensos a tais fenômenos, a partir da clínica, e as escolas psicanalíticas se dividem quanto ao gancho que sustenta formulações teóricas sobre o se vê, já que a fala é atravancada.   Alguns exemplos: Escola Francesa de Pierre Marty (paradigma das neuroses atuais), concepção de Joyce McDougall (estudo sobre os afetos e a desafetação) e Nasio (formações do objeto a). O traço clínico de tal evento corporal é a falta de questão para o sujeito, que não articula nenhuma circunstância simbólica relevante às primeiras marcas, e dessa forma o fenômeno parece não fazer história, e a articulação subjetiva realiza-se indiretamente por um saber do Outro (médico ou outros). O fato é que a lesão orgânica não foi circunscrita como de interesse à investigação psicanalítica, no esforço freudiano de delimitar os objetos da psicanálise. Seria a lesão orgânica a marca na clínica psicanalítica da ausência de elementos psicopatológicos do corpo em psicanálise? Os impasses sobre a corporeidade marcam o retorno no real do corpo o que do corpo foi escamoteado nas operações de formalização da ciência?


[1]             DESCARTES, R. “Méditations métaphysiques”, pág. 125,  Le Seuil,1978, Paris.

[2] Freud sustenta a importância do biológico, entretanto desloca a importância para outras causas etiológicas, mesmo que o esforço se dava na busca por uma correspondência biológica do aparelho psíquico, vide  Projeto para uma Psicologia Científica (1895).

[3]  SIMANKE, R. T. “Metapsicologia lacaniana – os anos de formação”. Discurso Edit, Curitiba: Editora UFPR, 2002, São Paulo.

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Sobre Jonas Boni

Psicanalista.Psicólogo pela Universidade de São Paulo. Especialista em Psicologia Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro Participante da Escola de Psicanálise dos Foruns do Campo Lacaniano de São Paulo.
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