Os conceitos de depressão e melancolia em Hugo Bleichmar, Maria Rita Kehl e Pierre Fédida.

Trabalho final do 1º ano do curso “Psicologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea”, do Instituto Sedes Sapientiae, novembro de 2011

                                                                      Pedro Gabriel Galheigo Coelho

Introdução

Durante o módulo de Depressões desse curso, muitas vezes os temas tratados em aula e nos textos me lembravam uma paciente que eu atendo há um ano, e cujo caso me traz muitas dificuldades. No início do módulo, quando o foco de estudos era o texto “Luto e Melancolia”, me parecia se tratar de um caso de melancolia, porém ao adentrarmos no estudo das depressões eu comecei a ter dúvidas se era isso mesmo. Desde então, a partir da parte de supervisão do curso, esse diagnóstico de melancolia acabou sendo descartado, mas deixou a percepção de que a diferença entre melancolia e depressão não havia ficado clara para mim.

Minha tentativa inicial de reunir todas as idéias e visões às quais fomos apresentados, dentro de uma única compreensão dos conceitos se mostrou insuficiente, e fui obrigado a  repassar as leituras, desta vez mantendo em mente o que eu havia ignorado na primeira: este campo de estudos é difícil e fragmentado, e se há um ponto em que todos os autores lidos concordam, é que não há consenso nem clareza para muitos que trabalham na área.

Minha intenção nesse ensaio é tentar compreender melhor a depressão e a melancolia, trabalhando com três autores cujos textos foram lidos em aula: Maria Rita Kehl, Hugo Bleichmar e Pierre Fédida. São autores cujas visões sobre o assunto ficaram um pouco mais claras para mim, e que possuem diferenças marcadas entre si.

No entanto, é necessário reconhecer, antes de começar, que este é um trabalho “raso” de revisão bibliográfica dos autores. Meu escopo e meu contato com o material são limitados, sendo possível usar apenas um pouco de leituras fora das dadas em aula. Certamente aqui se encontram alguns erros de compreensão dos autores e dos contextos de onde eles escrevem. Os autores, em especial Fédida e Bleichmar, também tratam do dialogo entre a psiquiatria e a psicanálise no que se refere a estes conceitos e sua diferenciação; não procurarei tratar desta discussão para além de mencionar a confusão que ela pode acrescentar para o leitor desatento. Também não entrarei na diferenciação que Kehl faz entre a melancolia descrita por Freud e a melancolia como ela aparece ao longo dos séculos; quando falo de melancolia, leia-se o conceito freudiano de melancolia, como parte da nosografia psicanalítica.

E por fim, aviso que mais do que uma tentativa de explicar ou analisar estes autores, este trabalho é uma tentativa de construir – para mim mesmo – um entendimento do assunto, que eu possa levar comigo para ser submetido a mais questionamentos no futuro. Portanto, é inevitável que eu incorra num tom de concretude e de finalidade na minha análise dos autores, para além do possível e pretendido por eles. As coisas não são tão simples quanto eu coloco.

Pretendo iniciar meu trabalho estipulando, com base nos textos, como cada autor enxerga tanto a melancolia quando a depressão. Em seguida farei uma comparação entre eles, procurando estabelecer também para cada um como os dois conceitos se relacionam. O tempo permitindo, gostaria também de passar brevemente por como a confusão terminológica entre depressão e melancolia aparece mesmo nos textos dos próprios autores e de outros da área, o que adiciona mais dificuldade à esta tarefa de distinção.

Análise dos conceitos

Melancolia

De início pensei que a confusão que tinha me ficado do curso se encontrava apenas na diferença entre os conceitos de Depressão e Melancolia, porém ao tentar precisar o local desta confusão descobri que na verdade em cada texto esta diferença ou ia sendo construída de forma relativamente clara (dentro da visão do autor), ou não era colocada em absoluto. Como expliquei acima, a dúvida se elucidou mesmo apenas quando fui tentar contemplar ambos conceitos dentro destas visões bem distintas. A melancolia, sendo um conceito mais antigo, parece gozar de melhor coesão nesta comparação inter-autoral, e portanto o ponto de divergência também fica melhor delimitado. De fato, este parece se tratar da situação, feita por Freud, da melancolia no campo das Neuroses Narcísicas.

Como vimos no curso, Freud de início considera ambas a melancolia e a psicose como neuroses narcísicas para em posterior formulação colocar a segunda numa categoria própria. A todo momento, a separação entre ambas se mantém por escolha do próprio Freud. No entanto, a partir da releitura de Freud feita por Lacan, alguns autores passam a questionar esta distinção, venda na melancolia um aspecto ou forma da psicose. Assim sendo, a posturas que Bleichmar, Fédida e Kehl assumem frente à melancolia parecem depender em essência da proximidade com esta linha da escola francesa.

Maria Rita Kehl, sendo talvez a mais lacaniana dos três autores, chega inclusive a discutir esta questão no capítulo 9 de O Tempo e o Cão, usando como referência dois autores, a francesa Marie-Claude Lambotte e o brasileiro Antonio Quinet. De acordo com ela, a primeira “opta por seguir a nosografia freudiana”, enquanto o segundo apresenta uma “abordagem a favor da hipótese da psicose”. A própria Kehl por sua vez, deixa claro estar mais alinhada com a segunda teoria, concluindo que “todos esses fatores apontam para a hipótese de uma estrutura psicótica”. Ambas hipóteses mantêm a linha geral da conceituação que Freud faz da melancolia em “Luto e Melancolia”; uma perda de objeto numa época muito primitiva da constituição do sujeito, levando este a fazer uma incorporação (de caráter oral, primária) do objeto perdido e odiado, resultando num ego que se desenvolve na forma do mesmo (“a sombra do objeto perdido recobre/recai sobre o eu”). A perda neste caso não seria como a da castração no Édipo, ocorrendo  ainda quando o sujeito esta indiferenciado da mãe. O resultado disso é  um indivíduo que sintomaticamente se queixa e se culpa pelo crime que na verdade não cometeu; foi o objeto que falhou, ele apenas fracassa em diferenciar-se daquele. A divergência entre os lacanianos se dá em compreender este resultado como sendo neurótico ou psicótico – uma discussão que Kehl explica, mas que não vou reproduzir por me faltar uma compreensão mais clara da teoria lacaniana das psicoses. Direi apenas que nesta visão o melancólico está sujeito a uma mãe não-castrada, não-desejante, da mesma forma como um sujeito psicótico, e portanto não passaria pela experiência de ser o falo para esta. A diferença é que isto não se dá por uma mãe onipotente, mas sim deprimida, que não consegue dar um olhar ao bebê, lhe conferir um lugar simbólico, restando-lhe o lugar de “dejeto”. Se o melancólico não vive a experiência de ser o falo do Outro (essencial para a inscrição da falta) ele não se diferencia deste Outro, o que explica ele tomar a si mesmo como aquele que lhe faltou.

Precisar qual postura tomam Bleichmar e Fédida frente a esta discussão já é mais complicado. Nos textos que vimos no curso nenhum deles expõe de fato uma concepção nosográfica da melancolia, esta aparecendo apenas em pequenos a partes e comparações com a depressão. Na introdução que lemos do livro “Depressão: Um estudo psicanalítico” de Bleichmar, a palavra melancolia aparece principalmente no diálogo com as classificações psiquiátricas da depressão, em termos como “psicose melancólica”, “estupor melancólico” e “melancolia endógena”; em nenhum dos trechos me parece que o referencial teórico em questão é o psicanalítico. De forma semelhante, o texto de Fédida apresenta referencias à melancolia apenas no sentido de uma evolução ou precipitação da depressão, nunca como uma entidade clínica em si mesma. Portanto para hipotetizar acerca de suas concepções da melancolia será necessário recorrer a outros textos.

No artigo “A clínica da depressão: questões atuais”, Fédida e Manoel Tosta Berlinck se propõem a estabelecer “uma diferença específica entre depressão e melancolia” e a descrever “o campo semântico próprio da depressão”. Neste fica explícito a compreensão da melancolia “caracterizada – tal como Freud a fez – como neurose narcísica”, originando de um conflito entre as instâncias egóica e superegóica, e da identificação do sujeito com o Ego Ideal. Fédida e Berlinck também citam Lambotte, como fez Kehl,  ao postular a separação de melancolia e psicose, apesar de ressaltar que elas se “encontram próximas”. Se pudermos tirar destas falas um posicionamento geral de Fédida frente à melancolia, seria um de alinhamento com Freud.

Já Bleichmar, apesar de não nomear a melancolia especificamente neste momento, sugere no fim do mesmo capítulo introdutório mencionado acima, a existência de uma “depressão narcisista, na qual o sujeito sente que em vez de ser o ego ideal é o negativo deste”. De fato, nos capítulos “Narcisismo” e “O narcisismo e as estruturas psicopatológicas”  (capítulos 1 e 2, respectivamente) a melancolia aparece como um modelo da situação onde o investimento de objeto se dá de forma narcísica. Este mesmo processo de “eleição narcisista de objeto” essencial na melancolia (para que o objeto perdido seja vivido como uma perda no ego e não na libido) seria essencial ao desenvolvimento de outros tipos de depressão narcisista. Assim, parece para mim certo que a melancolia se encaixe nesse grupo de depressão narcisista – já se isso implica em melancolia ser entendida como psicose ou como neurose narcísica, não posso afirmar.

Depressão

Diferentemente da melancolia, a discussão da depressão é relativamente recente no campo psicanalítico, e como vimos no curso, é fortemente alavancada pela necessidade de diálogo com a psiquiatria moderna e o discurso social vigente. Desta forma, não é uma conceituação que goza do privilégio de ter nascido dentro do campo psicanalítico, identificada a partir da escuta clínica. Ela vem de fora para ser lida dentro do nosso campo, por nosso método, e talvez seja por essa característica “estrangeira” que nossos autores vão encontrar respostas tão diferentes  para a pergunta “O que é depressão?”.

Dos três, Bleichmar é o único psiquiatra e parece ser o que mais se pauta (a julgar pela introdução de seu livro) no diálogo com a psiquiatria. O início todo do capítulo se ocupa de mostrar a falta de precisão na forma de a psiquiatria identificar a depressão, se baseando em vários sintomas de ordem fenomenológica sem, no entanto, esclarecer a ligação entre eles. De fato, como Bleichmar mostra bem, esta imprecisão permite até diagnosticar a depressão na ausência dos ditos sintomas.

A partir daí o autor procura definir o que não é a base do fenômeno depressivo (tristeza, inibição, auto-acusação), para então poder precisar o que é. A resposta a que chega é de que depressão, em sua essência mais pura, é o que ocorre quando há uma combinação muito específica de fatores:

  • A perda de um objeto de desejo;
  • Uma fixação intensa a esse objeto perdido (não acredita poder substituí-lo por outro), e;
  • A crença, por antecipação, de que o desejo é portanto irrealizável. O “por antecipação” está na frase pois não é necessário provar que o desejo é irrealizável para ocorrer a depressão, basta a crença.

Do jeito que eu coloco a questão aqui pode parecer uma visão excessivamente simplista, e que se depressão fosse só isto, seria claro para todos. Porém, ela me parece ser resultado de um trabalho de destilação da depressão, ou seja, de reduzi-la a sua essência. Não é o fenômeno mais visível da doença, nem o aspecto com o qual se irá trabalhar diretamente, mas sim o núcleo que compartilham todas as inúmeras formas clínicas da depressão. O trabalho a partir disto é compreender como as diferentes estruturas e formas de constituição do sujeito e seus objetos de desejo irão resultar em variedades muito particulares de depressão; qual a diferença entre a depressão em que se perde um objeto libidinal,  e a depressão onde o objeto era investido narcisicamente, com o qual o sujeito pode estar identificado? Como se manifesta na depressão a diferença de intensidade da fixação objetal entre casos distintos? Que história de constituição do sujeito vai resultar numa depressão marcada pela auto-acusação, e qual irá resultar em uma depressão com muita inibição? Parece ser este o trabalho a qual se dedica o livro de Bleichmar – usar este mesmo modelo original da depressão para desdobrar e dissecar suas várias formas diferentes. Ao fim do livro, baseado nessas variações e outras funções associadas (como a auto-acusação, ou quão severa é a auto-observação do sujeito), Bleichmar propõe uma divisão em três categorias – depressão narcisista, depressão culposa ou perda simples de objeto.

Já o modo pela qual Fédida pensa a depressão incorpora em si a questão da importância desta para a constituição psíquica do sujeito. Para tanto, ele diferencia o estado deprimido (a depressão como doença) da  depressividade inerente à vida psíquica.

Para tentar explicar esta depressividade fundamental, terei de adentrar na referência que Fédida faz a Freud, ao falar de glacialidade. Esta referência é explicada detalhadamente no artigo já mencionado que Fédida escreve com Berlinck, onde ele se utiliza da “imaginação filogenética” que Freud faz acerca do efeito da era glacial sobre o homem primitivo. Freud hipotetiza que o esfriamento glacial teria privado o homem de sua sensorialidade, e portanto de sua capacidade de encontrar o objeto de satisfação sexual (uma vez que nessa época o homem ainda contaria com a regularidade sexual do cio, identificado pelo cheiro). Restaria como única opção a este ser humano desamparado, o mecanismo mesmo dos animais e vegetais – hibernar. Dentro das cavernas, o homem seria tomado pela depressão, prostrado numa “forma morta” que paradoxalmente preserva a vida, como as árvores no inverno. Esta situação se manteria até o momento em que o homem conseguisse organizar narcisicamente este vazio causado pela perda do objeto sexual. É exatamente nesta organização narcísica que estaria a depressividade, “um estado primaveril do psiquismo, onde o vivo deixa de ser inanimado” e onde brotam a sensorialidade e o imaginário do ser humano, que não mais dependem da presença física do objeto, podendo aluciná-lo. Ainda seguindo nesta imaginação, não seria por acaso ser nas cavernas onde encontramos “as primeiras manifestações representativas do ser humano” – os desenhos.

É claro que esta “fábula histórica” não se propõe a ser uma verdade filogenética de como o homo sapiens sobreviveu à era glacial, no entanto ela é muito útil para Fédida como um modelo ou símile do que se passaria na realidade ontogenética do sujeito. Não é acaso que o desencadeador da depressão mitológica seja a perda do objeto de satisfação a que todos estamos sujeitos, nem que na saída desta está o desenvolvimento da capacidade simbólica do ser humano hoje. A depressividade seria portanto esta capacidade inata ao homem de se organizar narcisicamente após uma situação de perda catastrófica, e “retorna toda vez que o psiquismo solicita uma restauração de seu narcisismo”.

Fica mais fácil agora entender o que Fédida quer dizer com “é preciso conceber o estado deprimido como uma derrocada da capacidade depressiva”, pois ela se dá na impossibilidade de passar da depressão (“inverno”) para a depressividade (“primavera”). O estado deprimido (entendido como patológico) seria  “uma doença humana do tempo”, um estado que submete brutalmente o sujeito e congela o tempo, “não somente no eixo passado-presente-futuro” mas também na forma pela qual nossas ações cotidianas produzem ressonância no mundo. Sem a dimensão do tempo, o sujeito deprimido perde o prazer de agir pois suas ações não se encadeiam mais, não é mais capaz de formular um projeto para si. Para sair da depressão é necessário reativar, por meio da transferência, o pensamento associativo e a ressonância das ações, sendo o próprio analista a caverna, que respeita o tempo necessário para o sujeito realizar esta passagem.

Por último, vamos ver como Maria Rita Kehl entende a depressão. Diferente dos outros dois autores, Kehl considera a possibilidade de a depressão ser uma estrutura como se entende na visão do estruturalismo lacaniano: uma posição histórica do sujeito frente à ameaça da castração, em um momento específico da travessia edípica. Como falei na introdução, não pretendo adentrar na teorização que a autora faz da Depressão como ocupando o lugar de sintoma social que era da melancolia pré-Freud. Direi apenas que ela faz uma análise da melancolia como esta aparece ao longo da história, e coloca a depressão como sua análoga atual no que se diz respeito à “perda do lugar do sujeito junto à versão imaginária do Outro”. Simplificadamente, ambas condições (melancolia pré-Freud e depressão) se caracterizariam por um sujeito que não mais consegue se instalar dentro dos imperativos sociais de sua época. Numa sociedade como a nossa que exige o gozo pleno, o depressivo é aquele que se encontra “desadaptado”, não consegue atender “aos desígnios do Outro”.

Como seria no entanto esta estrutura do deprimido? Para responder esta pergunta Kehl, faz um “rodeio teórico” por diversos textos e falas de Lacan para montar sua idéia de que o deprimido seria, em essência, aquele que recua de seu desejo frente à ameaça da castração. Ele é sim castrado, perde o lugar de ser o falo da mãe, mas não se aventura na descoberta do ter. Escolhe uma saída mais segura, sem rivalização com o Pai (o “dono do falo”) e portanto sem conflito. Assim, o sujeito (não) se a vê com sua castração como quem diz “eu não queria ter o falo mesmo, estou bem melhor assim”. Fica suspenso no que a autora chama de “terra de ninguém entre o ser e o ter”, parado no tempo edípico. Esta solução no entanto é covarde, e implica numa grande limitação das possibilidades de vida do sujeito, pois este tem sempre que sustentar a posição de quem não quer por si, fica impotente e submetido ao desejo do Outro, na castração primária.

Esta estrutura é, como reforça várias vezes a autora, neurótica. O sujeito chega ao momento da castração como qualquer outro neurótico, podendo encontrar a partir dela uma nova forma de se situar falicamente, identificado com o pai. É por “escolha” que ele empaca nesta parte da travessia edípica, o que o diferencia do melancólico. No entanto, Kehl ressalta a importância da problemática narcísica e da identidade nessa estrutura, acima até da questão das identificações (com o qual a clínica dos neuróticos geralmente trabalha mais). Seria uma neurose, mas também um estado-limite que poderia ser superado, não estando o sujeito preso a sua depressão estrutural.

                                                   

                                                Comparação entre autores

Vamos nesse momento fazer uma breve retomada das visões discutidas acima:

Maria Rita Kehl

  • Melancolia é uma estrutura da psicose, onde o eu do sujeito se confunde com o objeto perdido e odiado. Fica preso à posição de dejeto do Outro que não tem falta (a mãe “morta” ou mãe não-desejante), então ele não vive a experiência de ser o falo para o Outro.
  • Depressão é uma estrutura neurótica, mas também pode se manifestar como um estado na histérica ou no obsessivo. Na forma de estrutura, se dá quando o sujeito chega à fase da castração porém recua, trocando a possibilidade de entrar no segundo tempo edípico (de ter o falo) pela possibilidade de manter-se imaginariamente sem falta (mas ao mesmo tempo não sendo o falo). Não é fálico nem quer ser, porque querer ser implicaria rivalizar com o Pai.
  • A diferença entre ambos aparece portanto na identificação fálica. Ambos se assemelham nos sintomas, porém as origens destes não são as mesmas. Como o melancólico está psicoticamente preso a esta Mãe não-barrada, cabe a ele apenas ser o dejeto, ou se identificar com o Outro onipotente (nos episódios maníacos). Já o depressivo se faz como não-desejante, mantém-se na castração infantil como um ser não-fálico por covardia. Ao começar a sair desta posição o sujeito se vê diante de todas as possibilidades antes inalcançáveis, produzindo também um estado maníaco de potência.

Pierre Fédida

  • Melancolia é uma neurose narcísica, marcada pelo conflito entre superego e ego, onde o primeiro ataca o segundo por este se confundir como o objeto perdido e odiado. É uma estrutura onde o eu se identifica com o Ego Ideal.
  • Depressão não é uma estrutura, é um estado resultante do fracasso da depressividade, sem a qual nem é possível a estruturação do psiquismo. O estado deprimido é comum a todos os humanos, ocorrendo sempre que estes têm de se organizar narcisicamente após uma perda catastrófica de objeto. Ele se torna patológico apenas quando a característica letargia do tempo (e portanto das ações e pensamentos) se cronifica, impedindo a passagem para a depressividade. Nesse caso a depressão brutalmente submete o sujeito a este lugar de vazio e inanimado, sendo dever da análise ir reativando o processo associativo de idéias do deprimido, e apontando a ressonância das suas ações no mundo. Com o analista respeitando o tempo do sujeito e fazendo a função de caverna-placentária, eventualmente a depressividade poderá se instalar, permitindo ao sujeito uma saída do estado de depressão.
  • A diferença principal entre os dois parece estar na comparação da violência da melancolia com o vazio do deprimido. Para Fédida, os melancólicos são deprimidos, mas também são “sábios, fortes, brutais e culpados”, dado a situação de conflito intrapsíquico em que se encontram. Crêem ter um ego insignificante pela comparação com o Ego Ideal, mas quando alcançam este lugar de realização freqüentemente o destroem com grande crueldade, nos estados maníacos. Este fenômeno só estará presente nos melancólicos, e portanto quando tratamos a depressão do melancólico é importante não confundir a mania com depressividade.

Hugo Bleichmar

  • É o autor onde a definição de melancolia está menos colocada, mas aparece ligada à idéia de depressão narcisista. Seria uma situação onde o sujeito está identificado com o negativo do Ego Ideal por nunca ter sido o falo para a mãe. Este “não ter sido o falo” não impede o sujeito de desenvolver um ego ideal, simplesmente força o melancólico a sempre ver o ideal como fora de si. Isto sugerepara mim que Bleichmar não encaixa a melancolia no grupo das psicoses, mas não posso afirmar isto como fato.
  • A depressão é o estado que se instala quando ocorre a perda de um objeto de desejo ao qual o sujeito se encontra fortemente fixado, levando ele a crer por antecipação que o desejo se tornou agora irrealizável. No entanto, esta fórmula nuclear pode ter infinitos desdobramentos: o objeto pode ser investido tanto libinialmente quanto narcisicamente; O objeto pode se tratar do próprio ego (ou seria o ego-representação?); A fixação ao objeto pode ser maior ou menor; O desejo pode sair mais ou menos inalcançável.
  • Nesse caso, a relação entre a melancolia e a depressão está bem confusa para mim. Apesar de um referencial teórico que claramente usa de Lacan, em nenhum dos trechos que eu li Bleichmar se refere diretamente aos tempos do Édipo, nem às diferentes classificações estruturais (neurose histérica ou obsessiva, por exemplo). E se a melancolia é uma possível configuração de depressão narcisista, então a depressão não seria apenas uma estrutura dentre as outras. Mas também não parece que um tipo de depressão se refere a só um tipo de estrutura. Parece que depressão e estrutura são entidades em paralelo, se referindo a primeira mais à questão narcísica do que à questão edípica.

A forma que Bleichmar propõe o tratamento da depressão no capítulo final me parece reforçar esta compreensão, pois de fato não parece um tratamento diferente do que se propõe a qualquer sujeito. A depressão, caso ocorra, exige uma escuta à sua composição, ao jogo de elementos que a compõe, para que então a análise possa revelar ao sujeito esta particular forma de ser, e abrir para a possibilidade de novas formas a substituir.

Temos aí uma análise dos três autores, que deixa claro as diferenças entre suas compreensões de Melancolia e Depressão. No entanto, também há alguns pontos de semelhança entre os textos que podem não ter sido ressaltados durante o trabalho, e que são interessantes de se considerar. As generalizações necessárias para fazer estas semelhanças não permitem que façamos uma unificação das visões teóricas em questão, porém, considerando que de alguma forma estes autores devem ter baseado suas idéias em suas escutas clínicas, será que podemos também “escutar” nessas teorias  o que a depressão têm de comum para os três?

  • Todos os autores situam de alguma forma a depressão como resultado de uma perda, seja do objeto de desejo, da depressividade e a vivência do tempo, ou da via desejante do sujeito. E para os três há algo que impede que o sujeito siga seu caminho “normal”, após esta perda (em Bleichmar isto é menor, mas aparece como a fixação do sujeito ao objeto);
  • Também para os três a depressão tem algo de “estado passageiro”, até mesmo para Maria Rita Kehl. Apesar de ela ser a única a caracterizar a Depressão como uma estrutura, ela também aponta que não é uma estrutura como as outras, podendo ser vista como um estado-limite, pois (pelo que entendi) ao mesmo tempo que implica uma posição histórica do sujeito em sua travessia edípica, também pode ser superada. Já Fédida e Bleichmar situam, ambos, a depressão como um estado “em paralelo” à formação de estruturas, podendo ocorrer em qualquer uma delas –  porém sem haver, nas palavras de Fédida, ”uma depressão neurótica, uma depressão perversa, uma depressão psicótica”;
  • Tanto Kehl quanto Fédida falam da importância de se distinguir a explosão de emoções e atividade que manifesta o sujeito deprimido no momento que começa a se pôr em movimento, da mania do melancólico que se encontra identificado com o ideal ou falo;
  • Para Fédida e Bleichmar, de alguma forma, o melancólico vive também uma depressão;
  • E, por fim, é comum aos três dar marcada importância à questão da organização e desenvolvimento narcísicos, na origem da depressão (mesmo que para Fédida isto é parte de toda depressão, não apenas do estado deprimido).

No que cada um tem de único, também gostaria de ressaltar alguns itens que eu achei  interessantes:

Em Fédida

  • A importância que ele dá aos “aspectos do tempo”, e de como eles ficam bloqueados na depressão – apesar de Kehl citar Fédida neste tema, nem ela nem Bleichmar parecem dar o mesmo enfoque à questão. Digo isto não no sentido de que eles ignoram o tema (afinal, o livro de Kehl se chama O Tempo e o Cão). É mais que eles não tratam, como Fédida o faz, o tempo como um sentido humano, um mecanismo que pode sofrer diretamente a influência da doença, e onde esta de fato reside.
  • Fédida também é o único a colocar a depressão (e a depressividade resultante) como um momento essencial à estruturação humana. Me parece estranho que, mesmo todas as linhas de pensamento psicanalítico atribuindo enorme peso à falta e à perda na origem do psiquismo, nem todas dão mesmo peso à depressão que inevitavelmente seguirá a esta perda.

Em Bleichmar

  • A tentativa de formular uma concepção de depressão que abranja tamanha variedade de manifestações clínicas sem, em contrapartida, reduzir todas a uma só história. Por mais que sua teoria me parece ser a mais “esquemática”, mais pautada em elementos específicos, a possibilidade enorme de desdobramentos também me dá a impressão de ela ser muito clínica, dirigindo nossa atenção à variedade de elementos que podem estar em jogo numa depressão.

Em Maria Rita Kehl

  • A tentativa de não simplesmente encaixar a depressão dentro das conceituações já existentes na psicanálise desde sua origem, mas de criar novas teorias de acordo com o mundo que se apresenta na clínica hoje. E que, apesar deste viés particular de seu trabalho, ela não deixa de contar sobre o cenário teórico passado e atual da área (como o debate sobre melancolia ser neurose ou psicose).
  • Também me agrada em seu livro o fato de ela escrever sobre a configuração social que faz da depressão uma “epidemia global”, o que também ocorre em Fédida (mas talvez menos?).

Da “confusão” terminológica nos textos

O primeiro passo deste trabalho foi revisar a literatura do curso procurando todas as vezes em que autores faziam diretas à diferença entre depressão e melancolia. O curioso no entanto foi perceber que várias vezes um dos termos aparecia aparentemente fora de seu contexto teórico particular, ou no momento em que se discutia o outro.

O caso mais comum foi de encontrar o adjetivo melancólico se referindo na verdade a algo do âmbito da depressão. No capítulo de introdução do livro do Bleichmar, como já mencionado acima, a palavra melancólico aparece três vezes, todas dentro do contexto psiquiátrico da depressão, nunca no da melancolia psicanalítica. De fato, em apenas um momento nos capítulos que li do livro “Depressões: um estudo psicanalítico” (nominalmente, a introdução e os capítulos 1, 2, 4, 8 e parcialmente o 5), notei o autor se referir diretamente à melancolia como postulada por Freud, no capítulo 1 quando ele se indaga sobre a “eleição narcísica de objeto”.

No primeiro capítulo do livro “Dos benefícios da depressão”, Fédida também faz uso da palavra melancólica num contexto particularmente curioso: ao falar do “discurso interno doloroso e lentificado” de seu paciente Bernard, diz que este seria um substituto da agilidade depressiva e uma salvaguarda contra o risco da precipitação melancólica” (p.30). Logo em seguida, coloca que em certo contexto da depressão, “é absolutamente excluída a realização de um trabalho num enquadre analítico, pois a depressão com evolução melancólica inevitavelmente tiraria partido de uma situação simbolizada como sacrificial e passível de um desfecho inevitavelmente suicidário” (p. 31). Dado que em 2000 Fédida publicou o artigo com Manoel Berlinck diferenciando ambos claramente, é curioso que em um livro de 2002 ele colocaria a melancolia como uma evolução perigosa da depressão. Não parece que ele esteja falando da melancolia como estrutura, mas então o quê seria exatamente a evolução ou precipitação melancólica da depressão?

Maria Silvia Bolguese, em seu livro “Depressão e doença nervosa moderna” faz uma leitura do mesmo livro de Bleichmar que vimos no curso, e ao falar da depressão na página 74 faz uma equivalência entre os termos depressão e melancolia: “ Por outro lado, desde a perspectiva da inexequibilidade do desejo, adquire profundidade o enunciado freudiano segundo o qual a melancolia (depressão) é a reação ante a perda do objeto libidinal.”. Dado que nesse momento a autora está falando da teoria de Bleichmar, faz sentido colocar a melancolia como sendo uma forma de depressão, mas seria possível estender esta equivalência a um enunciado freudiano?

Apenas Maria Rita Kehl, no que eu li e percebi, não faz este uso “confuso” dos termos, fazendo um trabalho notável de não somente distinguir, a qualquer dado momento, depressão de melancolia, mas também melancolia freudiana de melancolia pré-freudiana. Foi um tanto cômico ver que ela passou pela mesma dificuldade que eu nos seus estudos, quando escreve na página 194, “A seguir, na mesma entrevista, já não se sabe se Lacan se refere à tristeza depressiva ou à melancolia, já que ele completa seu argumento falando do estado de exitação maníaca que corresponde ao retorno, no real, daquilo que foi rejeitado na linguagem.”

Por fim, uma dificuldade terminológica que se dá na leitura em paralelo de Kehl e Fédida é que na primeira, o sujeito da estrutura da depressão aparece na maioria das vezes sob o nome “depressivo”, enquanto que no segundo, “depressivo” (ou variações com o sufixo “-ivo”) sempre se refere à “depressividade”, diferente do “deprimido”, que é da “depressão”.

Observações das professoras Helena Albuquerque e Mania Deweik após o trabalho

Há duas contribuições interessantes feitas durante a devolutiva deste trabalho que eu gostaria de acrescentar aqui.

A primeira seria que, apesar de várias linhas teóricas não falarem especificamente da depressão como um momento constitutivo do sujeito, a idéia de uma elaboração organizadora após uma perda é amplamente disseminada no campo teórico da psicanálise. No texto freudiano, por exemplo, ele vem frequentemente sob o nome de luto. Para todas as linhas psicanalíticas, a elaboração das perdas e a reorganização pulsional e narcísica que dela inevitavelmente decorre são partes essenciais do processo de constituição do indivíduo.

A segunda contribuição, a qual eu já incorporei ao trabalho, seria do erro de não reconhecer o peso que o tempo tem na concepção da autora Maria Rita Kehl sobre a depressão. De fato, creio que meu comentário foi mais na direção de ressaltar como Fédida trata o tempo como uma função humana em si mesma, para além da vivência lentificada do tempo que experimenta tanto o deprimido, quanto seu analista durante o tratamento. Foi sugerido, como uma referência para futuros estudos deste tema específico, o livro Depressão de Daniel Delouya, onde o autor fala da escanção lógica e temporal que o bebê desenvolve através do par prazer-desprazer.

Referências Bibliográficas

Bleichmar, HDepressão: um estudo psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983

Berlinck, M. T.; Fédida, P. A clínica da depressão: questões atuais. Rev. Latinoam. Psicopat.

Fund., São Paulo, v. 3, n. 2, p. 9-25, jun. 2000

Fédida, P. Dos benefícios da depressão: elogio da psicoterapia. São Paulo: Escuta, 2002

KehlM.R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões, São Paulo: Boitempo, 2009

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Sobre Pedro Coelho

Psicanalista. Psicólogo formado pelo Instituto de Psicologia da USP - IPUSP. Membro do Centro de Estudos da Teoria dos Campos - CETEC. Trabalho segundo orientação psicanalítica, na linha Freudiana e da Teoria dos Campos, criada por Fábio Herrmann Membro da Clínica da Alves e colaborador do blog da Clínica da Alves
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