O corpo e a doença orgânica em Freud: narcisismo, pulsão e o Eu

O mote deste trabalho é acompanhar o desenvolvimento das principais hipóteses de Freud a cerca da relação entre corpo, o narcisismo, pulsão e o Eu a partir de três textos, “À Guisa de Introdução ao Narcisismo” de 1914, “Pulsões e Destinos da Pulsão” de 1915 e “O Eu e o Id” (1923), a fim de contribuir teoricamente nos estudos sobre as doenças orgânicas, amplamente discutidas na contemporaneidade em torno do fenômeno psicossomático, caracterizado pela lesão orgânica. O narcisismo é descrito como processo de investimento libidinal no próprio corpo e fundamental na constituição da instância do Eu. A pulsão refere-se ao constructo metapsicológico de fronteira entre o somático e o psíquico. A construção de tais conceitos é marcada por reformulações. No estudo de tais conceitos e da relação com o corpo, a construção freudiana e o método vislumbrado nem sempre suficientes para pensar a corporeidade contemporânea, no que tange à doença orgânica.

DO ORGANISMO AO CORPO – DO CORPO AO APARELHO PSÍQUICO

Com Freud, a psicanálise é definida como método de tratamento e método de investigação, cujo o empreendimento teórico é compor elementos próprios à clínica da psicanálise: uma metapsicologia. Para tanto, uma ruptura é necessária principalmente no que concerne à prática médica no final do século XIX. Embora não somente, os fenômenos somáticos têm contribuição indubitável para tal ruptura, vê-se os estudos sobre a afasia e da histeria. A consequência inicial da tradição epistemológica psicanalítica é o reposicionamento do corpo, em oposição ao objeto médico. Sobre a afasia e a histeria Gabbi Jr (1991) afirma que são dois momentos distintos da Freud, enquanto psicanalista, a fim de adotar uma posição diante do campo da linguagem e o estatuto do corpo para o método de investigação e tratamento denominado psicanálise.
O giro inicial da psicanálise, a partir dos estudos sobre a afasia e do contato com a histeria, é correlato ao esforço de Freud em separar aspectos psicológicos dos aspectos anatômicos do objeto de estudo, para então, na recusa de uma base anatômica como fundamento, ascendessem a linguagem e a marca subjetiva (historicidade do evento) sobre o corpo. Vê-se constituir do organismo humano, tratado pelo método anátomo-patológico como cadáver, um corpo vivo e falante na psicanálise.
“Nesse contexto histórico-epistemológico a figura da histérica ocupa um lugar estratégico, como o ponto central de um cenário no qual foi subvertido o espaço da medicina e constituído o campo psicanalítico” (BIRMAN, pág 137, 1991).
Com a histeria, o método psicanalítico ganha contorno mais preciso, e o corpo em psicanálise desprende-se do formalismo anatômico, convocando Freud a um método de trabalho que reposicionasse o corpo no jogo desvelado pelo falante, marcado pela história e representações na relação com o outro. A conversão histérica rende um paradigma para pensar a corporeidade em psicanálise, pois Freud formula uma topografia do aparelho psíquico que mapeia a metapsicologia do fenômeno segundo um ponto de vista tópico, dinâmico e econômico. Constitui-se uma gama de operadores metapsicológicos envolvidos na formulação do sintoma para um sujeito, cujo conceito-eixo da metapsicologia freudiana está às voltas com o termo pulsão (Trieb), que é definido como o limite entre o psíquico e o somático. É como corpo pulsional que o corpo pode ser auto-erótico. É pelo narcisismo secundário que se constitui um Eu, este regulador da relação com sujeito com seu corpo e com objetos.
Ao aprofundar-se com o tema das psicoses (parafrenias), Freud revisa o aparelho psíquico constituído, a partir das análises de neuroses (histeria neurose obsessiva), e reformula inúmeros conceitos nos anos de 1914 a 1923, respectivamente, da tópica do consciente/inconsciente para Eu, Id e Supra-Eu; e termo como, pulsão, narcisismo e Eu. Dessa forma, esse período parece demarcar momento de giro na arcabouço conceitual da psicanálise, principalmente no que se refere ao aparelho psíquico e suas instâncias reguladoras.

Antes de iniciar o desenvolvimento proposto para este trabalho, no que concerne localizar a questão da doença orgânica a partir da relação entre corpo, o narcisismo, pulsão e o Eu evocarei a importância de situar os textos “À Guisa de Introdução ao Narcisismo” de 1914, “Pulsões e Destinos da Pulsão” de 1915, de maneira breve, na obra freudiana, no momento que for utilizar os referidos textos de maneira aprofundada de acordo com a necessidade do tema. Com efeito, inúmeras alterações ocorrem, quanto aos conceitos elaborados nestes dois textos, nos escritos posteriores e, inevitavelmente, mas sem profundidade, farei apontamentos em torno do texto “O Eu e o Id” de 1923. Esta posição se torna fundamental para evitar conclusões errôneas em determinados conceitos da metapsicologia psicanalítica e reafirmar a premissa de Freud no início de seu texto de 1915: “O verdadeiro início da atividade científica consiste muito mais na descrição de fenômenos que são em seguida agrupados, ordenados e correlacionados entre si. Além disso, é inevitável que, já ao descrever o material, apliquemos sobre ele algumas idéias abstratas obtidas não só a partir das novas experiências, mas também oriundas de outras fontes. Tais idéias iniciais – os futuros conceito básicos da ciência – se tornam ainda mais indispensáveis quando mais tarde se trabalha sobre os dados observados.” (pág. 145).
Segundo os comentadores da Standard Edition (FREUD, 1914), o termo narcisismo foi mencionado por Freud em 1909 numa reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena, mesmo ano em que foram publicados o relato clínico do “Pequeno Hans” (1909) e a segunda versão dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905d), e contemporâneos aos artigos metapsicológicos. Faz referências ao termo de maneira mais extensa no livro de 1910 sobre Leonardo DaVinci, na análise de Schreber (1911c) e em “Totem e Tabu” (1912-1913). Dessa forma, o texto encontra-se em um momento importante no giro conceitual que Freud sedimenta com os artigos “O Eu e o Id” de 1923 e “Inibição Sintoma e Angústia” (1925-1926), sobre as instâncias psíquicas e sua tópica e a angústia (angst) como operador metapsicológico, respectivamente.
Freud está às voltas com questões sobre o Eu, os objetos externos, e a distinção entre “libido do Eu” e “libido objetal”. As especulações de Adler, sobre o “protesto masculino”, e de Jung com a “libido não-sexual”, parecem contribuir na constituição de um operador conceitual denominado Narcisismo, que ao longo de todo o texto problematiza e exige um contorno mais preciso do Eu, e no qual Freud sinaliza, mas parece não responder, como nos diz Lacan no início de sua obra (“Os Escritos Técnicos de Freud” (Seminário 1 – 1953-1954), “O Eu na Teoria de Freud e na técnica da Psicanálise” (Seminário 2 – 1955-1956)). Para discutir o narcisismo, Freud parte da psicose, afirma que o Eu é constituído, revisa a teoria das pulões, aponta a uma instância futuramente denominada “Super-Eu”e marca o lugar do narcisismo no desenvolvimento sexual do indivíduo. E onde entra o corpo? “A libido retirada do mundo exterior foi redirecionada ao Eu, dando origem a um comportamento que podemos chamar de narcisismo” (FREUD, 1914, pág. 98), e que a posteriori, Freud afirma, “Enfim, é como se ficasse, dessa forma demonstrado, o que há pouco afirmávamos sobre o Eu consciente: ele é sobretudo um Eu-Corpo” (FREUD, 1923, pág. 39). O princípio de prazer e o princípio de constância regulam a ordem pulsional do aparelho psíquico, no texto de 1915, e neste Freud desenvolve a hipótese inicial de uma constituição original mítica para a partição de um contorno entre um dentro, o Corpo erogeinizado, e o externo, objetos a serem investidos.

O NARCISISMO

Miguelez (2007) desenvolve em sua dissertação de mestrado o movimento freudiano em torno do termo narcisismo, e curiosamente, afirma a idiossincrasia dos estudiosos em psicanálise sobre a unanimidade do termo enquanto o próprio autor do método investigava as origens, as bordas e as influências do termo no aparelho psíquico. “Uma análise mais apurada permite perceber que o conceito de narcisismo está longe de ser uma unanimidade. Um dos mais complexos da psicanálise, resulta da articulação de vários termos: pulsão, objeto da pulsão, libido, eu, auto-erotismo, outro – para mencionar apenas apenas alguns. Mais do que um simples conceito, ‘narcisismo’ é o resultado de uma complexa articulação conceitual” (pág. 10).
Freud recupera a origem do termo em P. Näcke, ao designar um comportamento do indivíduo que trata o próprio corpo como normalmente trataria um objeto sexual. A satisfação que se faz pelo acariciar-se, cobrir-se de carinho, e se compraz sexualmente por tais meios configura-se num narcisismo de sentido perverso, cujo o próprio corpo é o lugar de escoamento da tensão acumulada. Entretanto, ainda no texto de 1914, Freud faz uma sequência de elucubrações sobre o termo e o enquadra em diferentes sentidos: atribui o narcisismo como libido constituinte no desenvolvimento sexual humano, para além das perversões; afirma ser o “complemento libidinal do egoísmo próprio da pulsão de autoconservação e presente em todos os seres vivos” (pág. 97). Avança com a idéia de um narcisismo primário e normal quando aprofunda os estudos sobre a psicose (parafrenia), a dementia praecox (Kraeplin) ou esquizofrenia (Bleuler) e, embora Freud não vislumbre a cura das psicoses pelo método psicanalítico, aproxima estas aos paciente histérico e neurótico compulsivo “graves” no quesito de afastamento do mundo exterior, salvaguardando a diferença que nas neuroses não há perda de vínculos eróticos, em objetos externos ou imaginários. “Com o parafrênico é diferente. Este parece ter realmente retirado sua libido das pessoas e das coisas do mundo exterior, sem tê-las substituído por outras na fantasia” (pág. 98), o que acontece é o redirecionamento da libido ao Eu, configurando num comportamento chamado narcisismo. E é nesse ponto que Freud se concentra na primeira parte do texto, pois chamar para o Eu investimentos que outrora eram depositados no objetos requer um cuidado investigativo quanto a este Eu e a qualidade dessa libido, em termos precisos de uma metapsicologia.
Do narcisismo aos limites conceituais do Eu e da pulsão, Freud redige duas afirmações essenciais: (1) O Eu se desenvolve; (2) Existe uma diferença quantitativa e inversamente proporcional entre libido do Eu e libido objetal. Em numa escala de oposição, a fim de exemplificar tal relação libidinal, o estado de apaixonamento encontra-se numa fase mais avançada que a fantasia (ou autopercepção) dos paranóicos sobre o fim do mundo. Para tanto, isso implica que “[…] no princípio, as energias coexistem no estado do narcisismo e que são indiscerníveis para uma análise mais superficial. Somente quando passa a ocorrer um investimento nos objetos é que e torna possível distinguir uma energia sexual, a libido, de uma energia das pulsões do Eu” (pág. 99). Em outras palavras, o Eu se constitui e só se faz compreensível se existir a hipótese de pulsões auto-eróticas preexistentes ao narcisismo mencionado nesse trecho, e diante desta relação entre pulsão auto-erótica e narcisismo é necessário supor que algo deve ser acrescentado, uma nova ação psíquica para que se constitua o estado do narcisismo, e somente quando se configurar o momento denominado de narcisismo secundário (investimento libidinal em objetos externos) é que tal distinção entre pulsões do Eu e libido se faz verificável. Este ponto é retomado no texto o “Eu e Id” (1923), demarcando, quanto ao mecanismo de projeção do Eu, se tratar de um investimento narcisismo secundário, por mecanismos de identificação e introjeção de objetos investidos pelo Id (Freud, 1923, págs 54 e 55).
Behar (1984) desenvolve o termo do narcisismo em Freud, que seria o ponto de partida para Lacan em seu texto “O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica” (1936), e a autora afirma:
“Neste ponto, Freud está ainda preocupado em situar o narcisismo em relação à sua primeira teoria das pulsões e, percebe que a divisão da libido que propõe neste texto, em libido própria do Eu e outra que investe os objetos, é apenas um prolongamento inevitável de uma primeira hipótese que dividiu as pulsões em pulsões do Eu e pulsões sexuais” (pág. 3).
E ainda seguindo os pensamentos de Behar, a hipótese freudiana do narcisismo como intermediário entre o autoerotismo e a escolha de objeto o leva a postular um modo de escolha objetal narcísico, até então impensável, e a afirmar que as satisfações autoeróticas (anteriores ao narcisismo) são vividas em relação às funções vitais destinadas à conservação. Dessa forma, inicia-se o que Freud desenvolverá em 1923 com o texto “O Eu e o Id” sobre a tal ação psíquica que marca a transição de autoerotismo para o narcisismo. Para tanto é fundamental, antes de prosseguir, retomar as pulsões e seus destinos, a fim de acompanhar a produção freudiana sobre as pulsões sexuais, pulsões do Eu, e a que ponto elas tocam o corpo, pois o que se encontrará em 1923 é um Eu-corpóreo.

ENTRE O SOMÁTICO E O CORPO: AS PULSÕES

Sobre o termo pulsão (Trieb), principalmente nos comentários editoriais das publicações das obras completas de Freud, há grande discussão quanto a três problemas: primeiro sobre o termo Trieb em alemão e as articulações de significância na língua de origem com a palavra Instinct; a aparente ambiguidade entre pulsão (Trieb – Instinct) e seu representante psíquico (Triebrepräsebtanz – Instinctual representant), e terceiro, sobre a consequente dificuldade de encontrar correlato em línguas latinas. Embora tal ponto seja relevante, já se é discutido em diversos outros artigos (vide os comentários editoriais de Standard Edition e da recente tradução realizada por Luiz Alberto Hanns (2004)), então, apenas aponto tais referências e sigo a escolha (Hanns, 2004) de tradução para o termo Trieb como pulsão.
O texto de 1915, “Pulsões e Destinos da Pulsão”, é cronologicamente escrito e finalizado com o “O Recalque”. O termo pulsão é referido nas páginas 127-128, do volume XIV da ESB como “o conceito situado na fronteira entre o material e o somático, o representante psíquico dos estímulos que se originam de dentro do organismo e alcançam a mente” (FREUD, 1915, pág. 133). Em sua análise do caso Schereber (1911c), pulsão é descrita como fronteira entre o somático e o mental, o representante psíquico das forças orgânicas. Em 1905, em “Três Ensaios Sobre a Sexualidade”, Freud afirma pulsão como “o representante psíquico de uma fonte de estímulos endossomática, continuamente a fluir (…) um conceito que se acha na fronteira entre o mental e o psíquico” (pág. 134). Portanto, mesmo que o uso de diferentes palavras aconteça, há a aposta numa relação entre o aparelho psíquico e fonte de estímulos somáticos, e certa correlação, ou ambiguidade, entre pulsão e seu representante psíquico. “Pode ser, contudo, que a contradição seja mais aparente do que real, e que a solução seja precisamente na ambiguidade do próprio conceito – um conceito-limite entre o físico e o mental” (pág. 134).
Esse efeito de ambiguidade em torno do termo pulsão pode ser vislumbrado ao longo de todo o texto, e o esforço freudiano se faz valente, pois nada mais limítrofe entre a biologia e o psicológico que este termo, tanto que em 1920 Freud voltava a afirmar no texto “Além do Princípio do Prazer” que se tratava de o elemento mais importante e o mais obscuro da pesquisa psicológica. Vale relembrar a formação neurológica e a forte influência da biologia nos escritos freudianos, assim como a tentativa contínua de separar aspectos psicológicos de aspectos biológicos dos fenômenos encontrados em sua clínica, a fim de que o método fosse composto por uma nosografia, etiologia e tratamento com signos próprios à psicanálise, posição desde os estudos sobre a afasia e histeria, no final do século XIX (GABBI JR, 1991).
E o método de escrita do texto, para articular o conceito pulsão, inicia-se com contribuições do campo da fisiologia, a partir da idéia de estímulo e ação. Suas elucubrações caminham em distinguir estímulos de origem externa e de origem interna, a partir das estimulações e ações que os apaziguem. “A pulsão, ao contrário, nunca age como uma força momentânea de impacto, mas sempre como uma força constante. Como não provém do exterior, mas agride a partir do corpo, a fuga não é de serventia alguma. A melhor denominação para o estímulo pulsional é o termo necessidade (Bedürfnis), e a tudo aquilo que suspende essa necessidade denominamos satisfação (Befriedigung). Essa satisfação só pode ser alcançada por meio de uma alteração direcionada e específica (isto é, adequada) da fonte interna emissora de estímulos” (FREUD, 1915, pág. 146). Dessa forma, tais estímulos pulsionais, que não se apaziguam com uma fuga motora, são evidências da existência de um mundo interno, e de necessidades pulsionais.
A essência da pulsão, dessa forma, é proveniente de fontes de estímulo do próprio organismo, e de natureza biológica, regulado pelo princípio de constância (isso é, função de livrar-se dos estímulos que lhe chegam, de reduzi-los a um nível tão baixo quanto possível, ou se manter absolutamente livre deles), a constância de estimulação impõe ao sistema nervoso exigências muito mais elevadas. E Freud conclui, “[…] se chegarmos à conclusão de que mesmo a atividade do aparelho psíquico mais altamente evoluído está submetido ao princípio do prazer, ou seja, é regulada automaticamente pelas sensações da série prazer-desprazer, então dificilmente podemos negar a hipótese subsequente de que sensações de prazer-desprazer devem estar reproduzindo o modo como o aparelho efetivamente lida com os estímulos” (pág. 148).
Em outras palavras, a estimulação orgânica pela constância, a depender do apaziguamento de tais necessidades, seria traduzida de acordo com a série prazer-desprazer, por um aparelho psíquico oriundo de estimulações. Embora ainda não seja possível responder, com esta contribuição, evidencia-se a que se refere Behar (1994) sobre um ato psíquico ao qual se forma do organismo, um corpo próprio, uma tópica do aparelho psíquico.
Freud prossegue com apoio da biologia, e distingue quatro termos que se conectam com a pulsão e o ajudam a pensar o modo como se distingue das pulsões originais, através da série prazer-desprazer, pulsões sexuais e pulsões do Eu (autoconservação). A necessidade de afirmar tais dois grupos decorre da idéia de conflito presente, até então da tópica freudiana, entre o Eu e as reivindicações da sexualidade. A estratégia argumentativa de Freud é demonstrar a caracterização desses dois grupos, entretanto afirma: “[…] em seu percurso até o presente momento, a psicanálise só pôde fornecer informações razoavelmente satisfatórias a respeito das pulsões sexuais. Isso porque é justamente esse o único grupo de pulsões que ela pôde observar isoladamente entre as psiconeuroses” (FREUD, 1915, pág. 151), e portanto centra-se nas pulsões sexuais e em suas metas (destinos), mas sinaliza que a luz sobre melhores esclarecimentos quanto a pulsões do Eu se faz em análises a outras afecções.
Há quatro destinos possíveis para as pulsões sexuais: 1. A transformação em seu contrário; 2. O redirecionamento contra a própria pessoa; 3. O recalque e 4. A sublimação. Freud desenvolve os dois primeiros no texto de 1915, e deles deriva uma teoria sobre a conexão entre as três polaridades do aparelho psíquico: Eu/objeto; Prazer/Desprazer e Atividade/passividade, na qual o narcisismo tem função importante. A partir do organismo como fonte pulsional, ativa ou passiva, um Eu se organiza em sobreposição com a série prazer, enquanto o externo com a desprazer.
Freud constrói sua argumentação com três grupos de par de opostos, vontade de olhar/exibição e masoquismo/sadismo para exemplificar o processo de transformação da meta em seu contrário, e o amor/ódio quando trata da inversão de conteúdo. O curioso é que se apodera dos próprios pares de opostos para sedimentar o fato que a pulsão pode ser redirecionada à própria pessoa, e tal destino o aproxima do termo narcisismo. “Habituamo-nos a denominar narcisismo a fase inicial de desenvolvimento do Eu, durante a qual as pulsões sexuais se satisfazem de maneira auto-erótica; falta, contudo, abordarmos a relação entre auto-erotismo e narcisismo” (FREUD, 1915, pág. 156).
A satisfação auto-erótica concerne, sob a ótica da pulsão de olhar, tomar o próprio corpo como objeto a ser olhado, cujo prazer implica a uma formação narcísica e permanência do objeto aprisionado, e é justamente ao abandonar tal satisfação que a pulsão de olhar se dirige a outro objeto transformado-se da polaridade passiva para a ativa.
Quanto ao masoquismo/sadismo, o processo é um tanto mais complexo, cujo desdobramento mais detalhado ocorre no texto de 1924 “O Problema Econômico do Masoquismo”, entretanto, em linhas gerais, a contribuição quanto ao narcisismo e corpo na perspectiva de tal par de opostos tem processo análogo ao ocorrido com a pulsão de olhar. A transformação do sadismo em masoquismo significaria um retorno ao objeto narcísico.
“[…] podemos genericamente dizer que as atividades desses componentes são autoeróticas, isto é, que o aspecto mais importante é o órgão do qual emanam, sua fonte, e que o objeto é o elemento de menor importância, e que sempre coincide com o órgão. Entretanto, no caso da pulsão de olhar, cabe mencionar que, embora o objeto também seja, no início uma parte do próprio corpo, ele não é o olho em si. Também no sadismo, a fonte orgânica, que provavelmente é a musculatura capaz de exercer uma ação, remete diretamente a outro objeto, ainda que situado no próprio corpo. Assim entre as pulsões auto-eróticas, o papel da fonte orgânica é tão decisivo que […] diremos que a forma e a função do órgão é que decidirão a respeito da atividade e passividade da meta pulsional” (FREUD, 1915 pág. 156).
Dessa forma, a hipótese do autoerotismo leva Freud a concluir sobre pulsões que se satisfazem no próprio corpo, a depender da forma e função do órgão, e então não necessitam de investimentos em objeto externos para escoar a estimulação pulsional, e outra qualidade de pulsões, que necessariamente só se apaziguam com intervenção do mundo externo, estas denominadas de pulsões de autoconservação. É por meio destas que os objeto do mundo externo são trazidos ao Eu, e pelos processos de identificação e introjeção, o Eu desenvolve-se.
Miguelez (2007) contorna os escritos freudianos e diz que este autor realiza uma construção de Eus articulados às três polaridades que governam o aparelho psíquico: Eu/Objeto; Prazer/Desprazer; Ativo/Passivo: “O primeiro Eu é qualificado como ‘Eu realidade incial’, capaz de distnguir interno de externo mediante ação muscular. A ele se segue o ‘Eu-prazer purificado’, produto da projeção ao exterior do desprazível, e da incorporação do prazeroso no interior. Constitui o momento narcisista por execelência. Só depois o Eu fará oposição ao objeto, e prazer e desprazer significarão relações do Eu com objetos” (pág. 101).
No que concerne à regulação do princípio de prazer, este Eu-real inicial é correlato ao Eu-prazer, e todo crivo ao externo se faz entre parcela prazerosa, que ele incorpora, e parcela de desprazer, atribuída ao não Eu (externo). Em paralelo, sobre o par de opostos amor/ódio, Freud diz, “Se mais tarde o objeto se revelar como uma fonte de prazer, ele passará a ser amado, mas também incorporado ao Eu, de modo que para o Eu-prazer purificado, mais uma vez, o objeto coincidirá com o que é estranho e odiado” (pág. 159).
Esta hipótese para o Eu gramaticalmente escrita sob as três polaridades do aparelho psíquico não foram desenvolvidas fielmente por Freud em texto posteriores, embora da oposição amor/ódio, é possível apontar a gênese da Pulsão de morte do texto de 1920 “Mais Além do Princípio de Prazer”. Em 1923, tal conceito de pulsão servirá de alicerce ao que o narcisismo em 1914 se propunha a esclarecer.
Em outras breves palavras, Freud não ignora a importância do organismo, como fonte pulsional, e também a possibilidade de órgãos que se tornam objetos de satisfação. Sob a régia do princípio de prazer, a satisfação autoerótica é essencial à formação de uma unidade denominada Eu, e que organiza um corpo. Este corpo é pulsional, erótico. “O corpo humano, portanto, seria duplamente marcado, pelo psiquismo e pela sua materialidade somática” (LIONÇO, 2008, pág. 120), e diante da condição inicial de desamparo (consequência da necessidade de satisfação das pulsões de autoconservação por objeto externos, isso é, sob a régia do princípio de realidade), o aparelho psíquico, através do Eu organizado, parece alcançar a possibilidade de caminhos para a satisfação da estimulação do organismo como fonte pulsional, para além do próprio corpo que não se sustenta como suficiente para a manutenção em vida.
Entretanto, somados outros com o problema colocado no texto de 1914, com o narcisismo e o desligamento da realidade em casos de psicose, Freud promove um giro na dualidade das pulsões em Sexuais/Eu para de Vida/Morte e revê sua tópica aparelho psíquico em Eu, Id e Super-Eu para afirmar que “o Eu é, antes de tudo um ser corpóreo, e não apenas um ser superficial mas inclusive a projeção de uma superfície” (FREUD, 1923, pág. 38).
Behar (1994) diz: “Quando Freud afirma que o Eu é um ser corpóreo e inclusive a projeção de uma superfície e que, para se projetar ele se apodera da libido de objeto que vem do Id e se impóe ao Id como objeto erótico, ele está forjando na constituição do Eu um compromisso libidinal. Ao mesmo tempo em que há uma projeção sobre uma superfície, há a constituição de um ser corpóreo” (pág. 9). O substrato que permite a constituição do Eu como superfície seria a imagem e o ideal. Este é o que Freud concebe como ato psíquico/compromisso libidinal de seu aparelho.

O NARCISISMO E O EU-CORPO: COMO ARTICULAR AS DOENÇAS ORGÂNICAS NO ESCOPO PSICANALÍTICO?

A gramática do narcisismo, pela articulação que Freud propõe a partir da hipótese teórica do investimento libidinal no próprio corpo (objeto destino da pulsão), e o desdobramento defensivo (condição necessária ao eu organizado a posteriori) de tal funcionamento para a psique do sujeito nos primeiros meses de vida é ponto nodal para pensar o corpo historicizado e erótico da psicanálise, assim como no desenvolvimento da instância do Eu, que em 1923, postula-se um Eu-corpóreo. Este último movimento prescinde um processo de distanciamento do narcisismo primário e que, pelos conceitos de fixação e repetição , com efeito, produz-se intenso anseio em recuperá-lo. A libido deslocada do Eu para um ideal-de Eu, este como referência triangular ao sujeito e portanto experienciada como externa, implica na satisfação regulada pela realização desse ideal. “Ao mesmo tempo, o Eu lançou os investimentos libidinais aos objetos. Ele empobreceu em favor desses investimentos e do ideal-de-Eu e voltará a enriquecer-se tanto pelas satisfações obtidas com os objetos como pela via da realização do ideal” (FREUD, 1914, pág. 117).
O curioso dessa conclusão do texto freudiano é que a estratégia argumentativa pendeu para a análise da vida amorosa entre os gêneros. Em resumo, o conceito de eu corporal enquanto projeção, remete a transformação do que é da ordem do pulsional, quando o eu é diferenciado do outro. Por fim, é essa passagem que implica na transformação do corpo biológico em corpo erógeno. A passagem da dispersão pulsional para a unidade corporal, e a partir desta a emergência do eu e do corpo, está desenhada no conceito no salto do auto-erotismo para o narcisismo. Porém, Freud afirma que o fenômeno do narcisismo em locu pode ser compreendido também por outras vias: a doença orgânica e a hipocondria.
Sob o recorte da doença orgânica, a retirada de interesse pelas coisas do mundo, que não digam respeito ao sofrimento exercido pela enfermidade do órgão, influi sobre o investimento libidinal, que se recolhe para o Eu. Há a confluência entre libido e interesse do Eu (Ichinteresse) quanto ao destino do investimento e indiferenciáveis entre si. A mudança no funcionamento do órgão, retratada pela doença orgânica, comprovanda por agente etiológico e nosografia pelo método da medicina, provoca alteração no Eu, e consequentemente na distribuição da libido. Freud aborda tal fenômeno sob e somente a seguinte ótica: dado o organismo como fonte pulsional, qualquer alteração do mesmo implica em pressão ao aparelho psíquico em se adequar ao estado anteriormente equilibrado, concentrando-se sobre o movimento psíquico, mas pouco da doença orgânica em si e da relação do aparelho psicanalítico com a doença orgânica . A consequência lógica desse pensamento é subentendida pelos princípios de constância e prazer/desprazer, que então implica em algo do aparelho psíquico se movimente e ajuste tais princípios com a realidade: quem cumpre tal função, no pensamento Freudiano é o Eu, e portanto reinvestido de libido como mecanismo defensivo e autoregulador.
No caso da hipocondria, o processo é semelhante ao da doença orgânica, dadas sensações corporais penosas e dolorosas que produzem efeito sobre a distribuição da libido. Esta recolhida e dirigida ao órgão. A diferença marcada na hipocondria e, então aproximada aos processos da neurose, acontece pela ausência de alterações comprováveis. Freud afirma: “Aliás, já expressei no passado que me inclino a considerar a hipocondria como a terceira neurose atual, ao lado da neurastenia e da neurose de angústia” (FREUD, 1914, pág. 104).
Em consequência da reinvestida de libido no Eu, Freud se vê com um problema lógico quanto à sua tópica e teoria das pulsões derivada dos estudos da neurose. As psicoses, a doença orgânica e as neuroses atuais, no caso a hipocondria, impõe ao aparelho psíquico desenhado por Freud mudanças, embora argumente com o atual modelo explicações para o delírio de grandeza nas psicoses: um modo de lidar psiquicamente com o volume de libido recolhido ao Eu. “Constatamos que ao nosso aparelho psíquico cabe sobretudo lidar com as excitações que, de outra forma, seriam sentidas como dolorosas ou provocariam efeitos patogênicos. Esse trabalho psíquico que o aparelho realiza presta um inestimável serviço ao escoamento interno de excitações que não podem sofrer remoção imediata para o exterior, ou cuja remoção imediata seria indesejável naquele momento. Mas, de início não faz diferença se esse trabalho de processamento interno se aplica sobre objetos reais ou imaginários. A diferença só se fará perceptível mais tarde, quando a libido estiver direcionada aos objetos reais ou imaginários. A diferença só se fará perceptível mais tarde, quando a libido tiver direcionado aos objetos irreais (introversão) e causando, assim, um represamento libidinal” (FREUD, 1914, pág. 106).
E portanto, Freud promove mudanças topográficas vislumbradas no texto de 1923, “O Eu e o ID”, no que concerne ao Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente, como instâncias psíquicas, para Eu, Id e Supra-Eu. Porém, não somente, pois como afirmam os comentadores da Standar Edition, “[…] apesar de todas as suas novas compreensões e sínteses, podemos traçar, como tão amiúde acontece com as aparentes inovações de Freud, as sementes de suas novas idéias em trabalhos anteriores e, às vezes, muito anteriores” (FREUD, 1923, pág 14). Polariza a dualidade pulsional em Pulsão de Morte e Pulsão de Vida, cujos mecanismos das neuroses obsessiva e a melancolia são contrapostos e revistos sob a régia de suas novas proposições.
A revisão dos conceitos de Narcisismo, Pulsão e Eu na obra de Freud a partir dos textos comentados promove inúmeros enquadres quanto ao corpo em psicanálise, porém no que se refere à doença orgânica, a questão permanece em aberto e segue a proposta do autor em descrever, agrupar e classificar o que a clínica nos oferece.

BIBLIOGRAFIA

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Sobre Jonas Boni

Psicanalista.Psicólogo pela Universidade de São Paulo. Especialista em Psicologia Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro Participante da Escola de Psicanálise dos Foruns do Campo Lacaniano de São Paulo.
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