Esboço sobre “A montagem da fantasia sob a ótica da Teoria do Estádio do Espelho de 1949”

Desde as primeiras conversas sobre o tema da apresentação, proposto por Ana Laura e Beatriz, o grupo foi tocado pela amplitude possível do campo teórico que deveríamos tratar em nosso texto, em nossas produções. Diante dos significantes Montagem, Fantasia, Fobia, Perversão e do significante em específico Objeto, que ficamos em dúvida se estaria posto ou não, produzimos dois títulos diferentes: “Fobia, perversão: a montagem da fantasia” e “A montagem da fantasia: objeto fóbico, objeto fetiche”. O mais interessante é que já havíamos atravessado uma longa jornada de textos e discussões até o momento em que nos demos conta do fato de que cada um utilizou um nome diferente. Eis que surgiu a dúvida sobre o título, sobre o título verdadeiro, sobre o objeto perdido de nossa proposta… Qual era o tema verdadeiro? Qual a proposta inicial?
De fato, isto poderia ser facilmente resolvido, perguntando às origens da formulação, e seguir com nossas apresentações sem expor tal fato.
Porém, decido iniciar minha fala por este evento, no intuito de apontar que tal fenômeno está em causa, no mais profundo de nossa apresentação; a saber, da singularidade contida no conceito de fantasia e no aspecto específico do sujeito na montagem realizada sobre sua posição, em dois aspectos, em relação ao Outro e em relação ao objeto. Não é sem razão, portanto, que cada um dos participantes decidiu construir um texto particular sobre o tema perdido… Ainda que tenhamos discutido conjuntamente as principais passagens em Freud, principalmente, e em Lacan, de modo inicial, que cada um emoldurou um aspecto específico que se relaciona com este objeto inicial, qual seja, a extração irredutível de sujeito barrado punção objeto pequeno a; o próprio matema da fantasia.
A abrangência do tema causou, logo de partida, a necessidade de recortamos diferentes perspectivas contidas no encadeamento significante proposto:
1. Montagem da fantasia é diferente de construção e atravessamento da fantasia, e implica desdobramentos outros; o primeiro diretamente relacionado com a teoria da constituição e causação do sujeito e o segundo inebriado na perspectiva da experiência clínica; ainda que não tenha como separá-los radicalmente, dado que se há, em análise, uma construção e atravessamento, podemos inferir uma montagem. Sobre o inverso, ficaria receoso em afirmar a possibilidade de situar o momento de uma montagem, principalmente diante das experiências de estudos sobre indicadores de patologias do desenvolvimento humano. Contudo, Lacan, na teoria do estádio do espelho, situa um momento específico do sujeito, diante do reconhecimento de si numa imagem…. como veremos a seguir, e portanto, voltaremos a este ponto.
2. Outro ponto que delimitamos como essencial foi: o estatuto do objeto e como isto estaria articulado com a noção de montagem da fantasia em Freud e em Lacan. Este foi o ponto de partida fundamental na pesquisa e a partir de textos específico de Freud, como Sílvia e Marli citaram, acompanhamos as nuances do estatuto do objeto e a essência da teoria do objeto perdido.
3. Considerando que tínhamos fobia e perversão na proposta, organizamos a possibilidade de mapear a noção de objeto nessas especificidades da estrutura, bem como do recobrimento do objeto na via do objeto fóbico e objeto fetiche, enquanto possibilidade estrutural, na teoria da constituição do sujeito, e não somente como retorno subjetivo pela negatividade nos desencadeamentos da neurose, pela via da fobia, e da perversão, pela via do fetiche. Em outras palavras, as diferentes respostas subjetivas a partir dos 3 registros (Real Simbólico Imaginário), tanto em torno do simbólico pelo objeto fóbico, quanto do imaginário pelo objeto fetiche, enquanto falo imaginário e falo simbólico como operadores na estrutura enquanto avesso da castração. Nesta perspectiva, a teoria da falta do objeto, em sua relação com a frustração, privação e castração, pode ser um ponto de apoio no desenvolvimento, dado que é pela via da privação que o objeto adquire estatuto essencialmente simbólico.
O título de nossa apresentação se perdeu nas teias significantes de cada um dos participantes de nosso grupo. O que me fez causa e restou foi o ato de montar; o ato de realizar uma armação diante de algum objeto sobre estes significantes, ou seja, discutir a própria noção de montagem da fantasia pela via específica, e de modo audacioso, na teoria do estádio do espelho de Lacan no ano de 1949.
Digo, seria o momento, por excelência, que na azáfama jubilatória de resgate e fixação de uma imagem de si, pela via do reconhecimento, em que há “a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (LACAN, 1949/1966, p. 97), o instante de constatação da montagem de fantasia em causa, em que o sujeito, pelo efeito de divisão se amalgama a um objeto específico, eu, como posição numa cena ao desejo do Outro, e que simultaneamente realiza a extração do objeto (perdido e portanto) causa do desejo?

A TEORIA DO ESTÁDIO DO ESPELHO DE LACAN

Para que consigamos extrair uma relação entre a montagem da fantasia e a teoria do estádio do espelho, é necessário que desfaçamos a superposição existente entre a teoria do estádio do espelho, o texto de 1949 e o uso do modelo do esquema óptico, para que consigamos, então, apreender diferentes perspectivas trazidas por Lacan nesta teoria.
A teoria do estádio do espelho tem sua gênese em 1936, com a apresentação “The Looking-glass phase”, no congresso de Marienbad, que deu origem ao texto de 1938 “Os complexos familiares na formação do individuo”. Em 1949, Lacan apresenta no XVI Congresso Internacional de Psicanaálise, em Zurique, e publica, incluindo na obra “Escritos” de 1966, a única obra diretamente referida como “O Estádio do espelho como formador na função do eu, tal como nos é revelada na experiência psicanalítica”. A inserção do modelo óptico ocorre no início no ano de 1954, num momento de esclarecimento sobre a tópica do imaginário, quando realizava o ensino sobre “Os escritos técnicos de Freud”. Com diferentes inserções, Lacan utiliza tal esquema de forma explícita até o ano de 1964, em seu seminário 11, “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”.
É através desta distinção realizada na teoria do estádio do espelho que podemos vislumbrar uma releitura do momento do estádio do espelho, entre 6 e 18 meses na vida do infans, como correlato ao da montagem da fantasia, no sentido da estruturação subjetiva.

FANTASIA DE CORPO DESPEDAÇADO, FANTASIA DE TOTALIDADE ORTOPÉDICA: O INSTANTE DO AZÁFAMA COMO MONTAGEM DO SUJEITO

Esse desenvolvimento é vivido como uma dialética temporal que projeta decisivamente na história a formação do indivíduo: o estádio do espelho é um drama cujo impulso precipita-se da insuficiência para a antecipação e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos ortopédica (lacan, 1949/1998, p. 100).

Lacan nos diz que “o estádio do espelho é um drama cujo impulso precipita-se da insuficiência para a antecipação”. A retórica utilizada para descrever os meandros da experiência formativa do eu fora vinculada, em 1949, a um ato de inteligência, que poderia ser instantaneamente marcado na azáfama jubilatório do infans diante do espelho, quando este, sem o controle motor, supera a contingência motora para fixar um aspecto instantâneo da imagem como necessário para o reconhecimento de si, numa unidade de forma.
Diante do termo impulso, que no texto está diretamente vinculado a um drama que promove uma precipitação da insuficiência à antecipação, podemos correlacionar neste ato de inteligência (proposto em 1949) o júbilo do infans no azáfama jubilatório, que permite uma escanção que define dois tempos de fantasias: a primeira vinculada à imagem de corpo despedaçado e a segunda à imagem de totalidade do corpo. Compreender esta afirmação de Lacan como ponto de demarcação entre um tempo anterior e um tempo posterior, para as fantasias, parece-nos interessante e permite contemplar tanto a dimensão propriamente do corpo, em sentido de que ele é o que é, quanto das interpretações possíveis que o sujeito realiza sobre ele. Ou seja, do instante da montagem da fantasia, que nesta teoria do estádio do espelho poderia ser vinculada à posição do sujeito dividido quanto ao estatuto de seu corpo, pela via do Real e do recobrimento subjetivo organizado na unidade de si; um objeto particular e especígico que o situa na cena: o eu.
Há uma intencionalidade posta no verbo antecipar. A quem devemos atribuir tal intenção? Seria outro indicativo para a questão da insondável decisão do ser, diante da própria posição na estruturação da subjetividade? O movimento escrito por lacan implica numa ação de um sujeito que antecipa sua potência numa miragem imaginária, que proporciona uma realização de sua potência; de uma imagem organizadora de si, e portanto total ao corpo marcado pela prematuração específica do nascimento; ou seja, se há uma fantasia de corpo organizado houve um outro momento de um corpo despedaçado como fantasia.
A vetorização de tal movimento é centrípeta, isto é, de um impulso interno que se precipita da insuficiência na ação para a antecipação da ação. O efeito desta operação psíquica não só permite que o sujeito humano abra possibilidade de ação interna e no mundo, como inaugura a fantasia primordial.
Retomo outra citação do texto: “A assunção jubilatória de sua imagem especular por ser esse ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação que é o filhote do homem nesse estágio de infans parecer-nos-á pois manifestar-se, numa situaçãoo exemplar, a matriz simbólica em que o [eu] se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito” (LACAN, 1949/1966, p. 97).
Desta forma, a fantasia de imagem do corpo despedaçado parece ser encaminhada na direção de uma interpretação do sujeito, que surge em concomitância com a fantasia de que há uma imagem em totalidade ortopédica. Se sou assim agora, antes fui de qual jeito? Se sou inteiro, outrora fui desconectado. Ainda mais, parece que a hipótese de Lacan, neste texto, frisa a importância da posição do sujeito diante desta encruzilhada, quando afirma que se trata de uma operação (talvez mítica, e portanto relacionada com a insondável decisão do ser) antes da identificação com o outro. “[…] O sujeito antecipa numa miragem a maturação de sua potência […]” (lacan, 1949/1998, p. 98).
“[…] E para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante que marcará com sua estrutura rígida todo o ser desenvolvimento mental” (lacan, 1949/1998, p. 100). Ao que convém dizer sobre a intrincada relação estabelecida entre libido narcísica e função alienante do [eu], a indicação pode ser encontrada no conceito de agressividade. Este conceito foi introduzido por lacan em 1948, e é possível de ser estudado a partir das teses desenvolvidas no texto “a agressividade em psicanálise”, mais especificamente na tese iv, “a agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico e que determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades características de seu mundo” (lacan, 1948/1998, p. 112).
O termo alienante foi introduzido a fim de esclarecer o quê lacan definiu como função do [eu]. Em outro momento do texto lacan refere-se a uma “identidade alienante”, que é conjuntamente precipitada com a antecipação das fantasias para o sujeito, ambas (identidade alienante e antecipação das fantasias) são efeito do drama teorizado pelo estádio do espelho (lacan, 1949/1998, p. 100), cuja identidade alienante é delineada por estrutura rígida. Seria, em outros termos, a própria gênese da noção de fantasia, com a qual o sujeito, numa análise, procura atravessar para torna-la maleável ao fim de uma análise? Como o atravessamento da fantasia toca o eu do sujeito?

“assim, o rompimento do círculo do innewelt para o umewelt gera a quadratura inesgotável dos arrolamentos do eu” (lacan, 1949/1998, p. 100, grifo nosso).
No esquema óptico apresentado em “Os escritos técnicos de Freud” (1953-54) e “O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise” (1954-55), Lacan opera teoricamente a distinção entre os termos eu-ideal e ideal do eu, a partir da inclusão do espelho plano em analogia da formação do eu na relação com o pequeno outro.

O primeiro momento do uso do esquema óptico é intitulado de “esquema de dois espelhos” (LACAN, 1954/1986, p. 147). Sobretudo, compreende a temática do eu em psicanálise, a introdução do registro do imaginário pela via imagética do corpo e a primeira unidade organizada como eu-ideal, em caráter especial de teorização, sobretudo no ano de 1953-54. Em 1954, às aulas “Os dois narcisismos” e “Ideal do eu e eu-ideal”, a teoria sobre o esquema óptico envolve a concepção de narcisismo apresentada por Freud em 1914, especificamente sobre a formação do eu e dos termos Ideal-Ich e Ich-Ideal, eu-ideal e ideal do eu, respectivamente.
O olho do sujeito adquire importância vital para os efeitos descritos, para tanto, a posição deve se situar atrás do espelho côncavo e frontal ao espelho plano e numa distância ótima, no sentido de se ser capaz de visualizar nitidamente a ilusão de realidade na imagem. O estatuto da imagem vista pelo olho nesta posição é de uma imagem virtual no espelho plano, a partir da imagem real produzida no espelho côncavo (Ver figura 2).
O estatuto de imagem e de objeto deve ser sempre considerado em referência à superfície refletora, por exemplo neste caso em que a imagem real é tomada como objeto virtual. Isto é, imagem e objeto só podem ser atribuídos nestas categorias a partir de uma referência terceira, o espelho. As contribuições que Lacan fornece pelo esquema óptico para a subjetividade implicam diretamente tanto a relação imaginária quanto a simbólica.
A relação da imagem real do vaso com o objeto real bouquet é de metáfora com a formação do eu. Tem-se a ilusão de que vaso e bouquet estão perfeitamente encaixados, formando uma unidade no plano da imagem, ainda que os objetos estejam espacialmente em lugares diferentes. A formação do eu é compreendida pelo sentimento de si como efeito da identificação com a imagem no espelho: i(a). A metáfora consiste no desencaixe que há entre o sujeito e o corpo, pelo próprio inacabamento específico do homem em sua maturação biológica, e também pela impossibilidade inerente ao próprio aparelho ocular de se ver em totalidade o próprio corpo, considere visualizar as próprias costas ou os próprios órgãos sem ajuda de qualquer superfície refletora ou aparelho tecnológico em medicina, por exemplo, raio-x e ressonância magnética .
O eu-ideal confere ao definido por Freud de narcisismo primário, cuja identificação é na totalidade da imagem, enquanto matriz primária de futuras identificações do sujeito, como a referência estética de unidade. Lacan afirma que este primeiro narcisismo se situa ao nível da imagem real do esquema produzida pelo espelho esférico, “na medida em que ela permite organizar o conjunto da realidade num certo número de quadros pré-formados” (LACAN, 1954/1986, p. 148).
No ideal do eu tem-se o que Freud introduziu por narcisismo secundário, e o padrão fundamental que sustenta tal instância está relacionada com a imagem virtual produzida pelo espelho plano da imagem real. A metáfora criada permite afirmar que o espelho plano faz função ao espelho côncavo em similitude do que o outro faz com o sujeito nas relações entre semelhantes humanos.”O outro tem para o homem valor cativante, pela antecipação que representa a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, em toda realidade do semelhante” (LACAN, 1954/1986, p. 148).
Primordialmente, este modelo retrata o que advém da inserção do conceito de grande Outro na teoria do estádio do espelho. A introdução do grande Outro na cadeia teórica de Lacan ocorre na aula de 25 de maio de 1955, “Introdução do Grande outro” no livro “O eu na teoria de Freud e na técnica psicanalítica” (1954/1955), entretanto, acreditamos que a implicação deste conceito ao esquema óptico ocorre apenas na observação a Lagache. O efeito desta inclusão denota a particularidade da fala atravessando a ilustração do esquema óptico, pelo giro produzido à cargo da noção de significante e do grande Outro (A). A função da fala é colocada por Lacan como a mola superior da subjetivação, e a mola da fala é atribuída ao grande Outro (A). O lugar que correspondente ao grande Outro (A) é o espaço real por trás do espelho, onde se superpõem as imagens virtuais, cujo acesso do sujeito ao grande Outro é de deslocamento livre, como num modelo de espelho sem aço, e portanto transparente, onde seu olhar possa se ajustar na posição de qualquer ideal do eu. É importante relembrar que no primeiro desenvolvimento realizado em 1936 sobre a teoria do estádio do espelho “The Looking-Glass Phase” implica numa superfície refletora similar ao vidro, e então, transparente.
O enfoque dado na subordinação imaginária entre as imagens i'(a) – imagem real – e i(a) – imagem virtual – revela o jogo em que a forma do outro implica na subjetivação da instância psíquica que o sujeito se vê como eu. Esta subordinação concentra a pregnância introduzida pelo princípio de ilusão, falso domínio e de alienação intrínseca. A discordância das imagens i(a) e i'(a) implica o sujeito num transitivismo constante, cuja equação produz duas referências distintas, eu-ideal e ideal do eu, segundo o registro a que elas foram marcadas, a primeira referente à pregnância imaginária e a segunda atravessada pelo simbólico. O lugar conferido ao ideal do eu encontra-se num plano virtual, na realidade projetiva do campo instalado pelo grande Outro (A), que segundo o esquema, encontra-se por de trás do espelho plano, sob a contingência do grande Outro, nas siglas S,I.
Em “A tópica do imaginário” (1954/1986), Lacan realiza importantes considerações a respeito do eu e do sujeito, principalmente no que se restringe a compreender a distinção entre as duas instâncias eu-ideal e ideal do eu, oriundas da formulação de Freud sobre o narcisismo de 1914. A operação que descreve a formação do eu permite um delineamento aprofundado para o tema do narcisismo nos anos de 1953-55, ao qual Lacan emprega a necessidade de distingui-lo em duas modalidades, narcisismo primário e narcisismo secundário, cujos efeitos produzem as referências imaginária e simbólica definidas por eu-ideal e ideal do eu, respectivamente.
O narcisismo primário é vinculado à aquisição da imagem do corpo do sujeito, a partir da relação entre a imagem e o esquema corporal , no sentido de estabelecer uma relação do organismo com a realidade circundante de seus semelhantes, isto é do Innenwelt com Umwelt . Este primeiro narcisismo é enquadrado na imagem de eu-ideal i(a), pela referência do registro imaginário. Este primeiro momento é aproximado à particularidade subjetiva da aquisição da imagem referente aos traços filogenéticos da espécie humana (BEHAR, 1994; DOR, 1995, PORGE, 2006), mas que simultaneamente pode inaugurar a matriz das futuras identificações do sujeito, inclusive aquelas sustentadas simbolicamente. Seria esta primeira unidade um dos efeitos de uma operação psíquica exclusiva do sujeito humano, ainda que contemporânea à inscrição subjetiva em sua relação com o cuidado do outro?

Ela (imagem) faz a unidade do sujeito, e nós a vemos se projetar de mil maneiras, até no que se pode chamar a fonte imaginária do simbolismo, que é aquilo através de quê o simbolismo se liga ao sentimento, ao Selbstgefühl (sentimento de si), que o ser humano, o Mensch, tem do próprio corpo (LACAN, 1954/1986, pp. 147-8, parênteses nosso).

A imagem de si ou imagem especular propicia ao sujeito realizar a mediação entre o interno e o externo, bem como arquitetar o interno para que seja vivido como próprio. Esta imagem produz efeitos sobre a organização do investimento de libido em sua própria unidade, ainda que esta totalidade seja passível de ser reconhecida em outras formas. Eis quando há a possibilidade de abertura para o outro semelhante.
O narcisismo secundário é introduzido em decorrência da abertura produzida pelo narcisismo primário, dado que este permite não só a marca de uma forma primária de si, mas a abertura à relação com o outro, quando este também exibe o mesmo padrão fundamental que os agrupa num conjunto de particulares semelhantes. “O outro tem para o homem valor cativante, pela antecipação que representa a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, seja em toda realidade do semelhante” (LACAN, 1954/1986, p. 148).
O eu é definido como uma construção essencialmente imaginária, ao que se pode extrair de uma imagem externa de si. Com efeito, esta imagem fornece o primeiro paradoxo espacial do externo e do interno, ainda que indique a primeira espacialidade segura para o sujeito, no próprio contorno identificado a uma imagem. A ilustração pela teoria do estádio do espelho esclarece a aquisição desta superfície, como imagem vislumbrada da forma total do corpo em um domínio imaginário, em virtude da antecipação psíquica da realidade orgânica, postural e motora do corpo do sujeito.“A visão da forma total do corpo humano dá ao sujeito um domínio imaginário do seu corpo prematura em relação ao domínio real.” (LACAN, 1954/1986, p. 96).
O domínio imaginário do corpo é traduzido pela operação de formação do eu, ainda que a imagem com a qual o sujeito se reconheça seja de outro espacialmente distinto de si mesmo, ou seja, aquilo que ele vê e se reconhece como eu é outro que não ele mesmo enquanto objeto real. “aventura que se vê, se concebe e se reflete como outro que não ele mesmo” (LACAN, 1954/1986, p. 96). É desta operação no esquema óptico que se pode afirmar que o eu é um outro. Em síntese, Lacan afirma sua formação do mesmo modo que um objeto qualquer. O eu torna-se um objeto particular dentro da experiência do sujeito .

Porém, o eu desconhece o mecanismo produtor de sua própria unidade. Na teoria do estádio do espelho, é deste conjunto que decorre a síntese para o eu como função de desconhecimento, e isto pode ser correlacionado tanto pela antecipação de unidade na completude de uma imagem, em vista da realidade do corpo não corresponder à tal imagem, quanto pelo mecanismo produtor da antecipação, que por não se saber externo de si mesmo permanece oculto na própria formação (BEHAR, 1994; VALEJO, 1979).
Quando Lacan afirma que a aventura do eu está fixada no lugar que não é exatamente o si mesmo, inclusive ilustrada pelo esquema óptico a partir da referência das imagens, podemos introduzir a função do pequeno outro na dinâmica relativa à formação do eu. Ainda mais, acrescentamos a condição do ser humano estar necessariamente vinculado ao semelhante para se constituir como sujeito, dado que uma das perspectivas da antecipação da realidade do eu só pode ser apreendida quando há a mediação do pequeno outro .
A posição do sujeito neste momento de inscrição psíquica é localizada por Lacan na importância da concepção de antecipação, tendo em vista que há desacordo entre a realidade orgânica do corpo e o ato psíquico que cria a ilusão de unidade corporal. Anunciamos a hipótese da relação entre antecipação e sujeito em nosso capítulo anterior, e que pudemos constatar sua recorrência no início dos anos 50.
O sujeito é posto como a lacuna ou espaço virtual no qual o eu encontra seu lugar pela realidade da antecipação. O inconsciente vislumbra o lugar privilegiado para o sujeito, que escapa totalmente a este círculo de certezas no qual o homem se conhece como eu. Desta forma, o inconsciente é o discurso do outro (LACAN, 1954/ 1985).
“Na relação do imaginário do real e na constituição do mundo, tal como ela resulta disso, tudo depende da situação do sujeito” (LACAN, 1954/1986, p. 97). A discussão do estatuto do sujeito nesta operação imaginária poderia complicar a noção de constituição e de sujeito , ao ponto de se ter a hipótese da existência do sujeito antes mesmo de qualquer organização subjetiva . É somente pela possibilidade de organização de uma forma que delimita um contorno de si, que o sujeito incide e inscreve-se como sujeito e apreende o corpo como unidade. Tal ênfase na posição do sujeito está de acordo com a premissa de que o controle corporal é efeito de uma ação psíquica, e não da simples maturação orgânica. Não há sujeito sem eu, ainda que sem eu possa-se inferir um sujeito em possibilidade virtual. “O estádio do espelho representa o sujeito anterior ao nascimento do eu, bem como o surgimento dele” (LACAN, 1954/1986, p. 96).
Em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” (1953), o estádio do espelho é apontado como o momento em que há a primeira inscrição simbólica. Essa primeira inscrição pode ser articulada momentaneamente à matriz inaugurada pela imagem especular. As origens subjetivas da função simbólica estão localizadas na descoberta e pronúncia da unidade fonemática, que Freud apontou no par de oposição Fort-Da, por volta de um ano e meio (FREUD, 1920/2006, p. 141). Este tempo coincide ao tempo do estádio do espelho descrito por Lacan (LACAN, 1949/1998, p. 97).
Contudo, é na compilação intitulada de “O seminário sobre ‘A carta roubada’” (1955) que Lacan realiza a aproximação do sujeito com a noção de significante, pelo viés do registro simbólico, e o articula com o eu pelo viés imaginário e de caráter ilusório. Aliás, esta afirmação é recorrente quando Lacan trata da teoria do estádio do espelho, e inclusive já está presente no ano de 1949. A diferença consiste na sustentação teórica. O conceito de significante é articulado diretamente ao sujeito, tanto quanto na famosa interpretação de que um significante representa o sujeito para outro significante.
A introdução do esquema L (ver fig. 7) permite ilustrar no campo discursivo que sujeito e eu estão sempre associados. Ao que se refere à teoria do estádio do espelho, Lacan nos diz que a relação da diagonal a – a’ concentra a objetivação imaginária exposta no estádio do espelho, e exerce uma relação de sustentação com a diagonal S – A, ilustrativa do inconsciente ou do que podemos falar, registro simbólico.
Esta incursão por textos contemporâneos aos de nosso eixo metodológico se sustenta na necessidade de incluir os conceitos que figuram no esquema óptico de 1960 em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache”, a saber, o conceito de significante e de grande Outro, prioritariamente vinculados à posição do sujeito. A imagem célebre apontada em 1949 do infans, sob o efeito de júblilo, ao se identificar com uma imagem no espelho é retomada com o acréscimo de um movimento da criança diante do espelho e sob os braços do cuidador. Lembremos, no texto prínceps, a ausência de coordenação motora e postural é suplantada no infans pelo andador (“trotté-bébé”, LACAN, 1949/1998, p. 97) e sua posição diante do espelho permanece capturada pela imagem. Comparemos com a citação nos anos 60:

É que o Outro em que o discurso se situa, sempre latente na triangulação que consagra essa distância, não o é a tal ponto que não se exponha até mesmo na relação especular em seu momento mais puro: no gesto pelo qual a criança diante do espelho, voltando-se para aquele que a segura, apela com o olhar para o testemunho que decanta, por confirmá-lo, o reconhecimento da imagem, da assunção jubilatória em que por certo ela já estava (LACAN, 1960/1998, p. 685)

Esta citação amplamente difundida sobre o estádio do espelho, quando a criança movimenta a cabeça em busca do olhar testemunho do outro, denota tanto a importância do outro na constituição subjetiva, quanto a condição simbólica da operação de atribuir à imagem a simbolização de uma cena para além do espelho. Contudo, o que Lacan quer dizer com a expressão “por certo ela já estava” e qual a relação com as operações simbólicas para o sujeito e o eu?
Retornando ao desenvolvimento do esquema óptico em 1960, Lacan afirma que o sujeito encontra seu lugar no surgimento da própria matriz da Verneinung, como apresentamos acima, sob o aspecto do negativo, instalando-se no vazio, no furo que a linguagem inaugura. “Ele reside na cadeia significante, uma vez que é seu elemento mais radical em sua sequência descontinua e, como tal, o lugar de onde o sujeito garante sua subsistência de cadeia” (LACAN, 1960/1998, p, 672). No que tange ao eu, seu lugar está no próprio produto da hiância entre o lugar preparado para o sujeito (em sua essência de virtualidade significante) e o conjunto de referências que delimitam sua unidade a partir da mediação entre ideal do eu e eu-ideal. O eu emerge da posição que o sujeito poderia olhar (p. 675).
A qualidade da imagem atrelada ao imortal da vida é atrelada à própria pregnância da noção de permanência do eu para o sujeito, caso contrário, qualquer referência segura estaria suplantada na virtualidade do traço que o capta na imagem e na palavra. Ainda assim, essa imagem concentra a dualidade para o sujeito, fornece o quadro para o reconhecimento de si e ao mesmo tempo se sustenta na fissura que a modula em totalidade.

Existe na imagem algo que transcende o movimento, o mutável da vida, no sentido em que a imagem sobrevive ao vivo. Este é um dos primeiros passos da arte, para nós antiga – na estatuária é eternizado o morto. Essa é igualmente, na nossa elaboração do espelho, a função preenchida de uma maneira pela imagem do sujeito. Quando essa imagem chega a ser percebida por ele, alguma coisa lhe é subitamente proposta ali onde lhe não se limita a receber a visão de uma imagem em que se reconhece, essa imagem já se apresenta como uma Urbild ideal, algo de ao mesmo tempo na frente e atrás, algo de sempre, algo que subsiste por si, algo diante do qual ele ressalta suas próprias fissuras, por ser prematuro, e experimenta a si mesmo como ainda insuficientemente coordenado para responder a ela em sua totalidade (LACAN, 1961/1992, p. 340).
Por exemplo, pela via da significação simbólica do menos phi no imaginário, a interpretação da falta possibilita o deslocamento do sujeito para a posição I, segundo o esquema óptico, isto é, da referência simbólica via traço unário. O efeito para a posição subjetiva é de fazê-lo buscar na brecha da imagem especular, i(a), o objeto de seu desejo, o próprio a. (LACAN, 1962/2005, p. 50). Encontramos, portanto, a fórmula da fantasia neste ponto, mas também a dependência do sujeito em descobrir o que lhe falta como o objeto do próprio desejo, em relação ao grande Outro. Che vuoi?
O que o homem tem diante de si nunca é senão a imagem virtual i'(a) do que representei em meu esquema por i(a). O que a ilusão do espelho esférico produz à esquerda em estado real, sob a forma de uma imagem real, é algo que o homem só tem apenas a imagem virtual à direita, sem nada no gargalo do vaso. O a (suporte do desejo na fantasia) não é visível naquilo que constituiu pra o homem a imagem de seu desejo (LACAN, 1962/2005, p. 51, parêntese nosso).

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Sobre Jonas Boni

Psicanalista.Psicólogo pela Universidade de São Paulo. Especialista em Psicologia Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro Participante da Escola de Psicanálise dos Foruns do Campo Lacaniano de São Paulo.
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